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O jazz nunca perde o ritmo

  • Foto do escritor: Vinícius De Jesus Rodrigues Dos Santos
    Vinícius De Jesus Rodrigues Dos Santos
  • 12 de jul. de 2022
  • 5 min de leitura

Gênero musical dos anos 20 dominou as pistas e continua sendo referência mundial


Por Vinícius Rodrigues e Izabela Machado


Exatamente 100 anos atrás, as ruas dos Estados Unidos se agitavam com um novo ritmo. Um gênero musical que surgiu nos guetos negros e atraiu a atenção do mundo como a grande novidade dos anos 1920: o jazz.


Com trompetes, contra baixos, pianos, todos tocando num ritmo improvisado, o jazz se tornou febre durante a época e tomou as pistas de dança enquanto o mundo vivia o luto da Primeira Guerra. Aquilo que era para ser apenas uma moda em meio ao cenário pós conflito mundial, se tornou um dos maiores e mais lendários estilos musicais do mundo.



Como uma pérola da fusão cultural


O jazz surgiu em 1900, na cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos. Nesta época, a cidade já conhecia outros tipos de estilos musicais como o ragtime e o blues. Esses gêneros tiveram muitas influências dos ritmos africanos, misturados com as tradições culturais europeias. Isso porque, além da cidade ser historicamente marcada pela escravidão africana, Nova Orleans foi fundada pelos franceses, em um período sob o controle espanhol, antes de o estado de Louisiana ser anexado aos Estados Unidos.


Esse caldeirão cultural possibilitou que a cidade se tornasse o berço do estilo mais frenético que já passou pela década de 20. O músico Luiz Américo Manaia, conhecido também como Ralinho na cidade de Bauru, é baterista e se especializou em jazz nos anos 90. Ele nos conta que a pluralidade de etnias, junto da população marcante de negros na cidade de Nova Orleans, proporcionou o surgimento dos gêneros ragtime, e dizzieland, que antecederam e criaram a base para a popularização do jazz.



A cidade seguia o ritmo da música. Pelas ruas de Nova Orleans, era possível se encontrar de tudo — música popular espanhola, inglesa, ballet francês, cantos católicos e corais protestantes. Entretanto, o que proporcionou de fato a chegada do jazz na cidade foi a escravidão.


A comercialização dos povos negros nos Estados Unidos era feita através de navios negreiros vindos da costa oeste da África. Ao chegar eles eram separados, porque, dessa maneira, seriam incapazes de se comunicar e planejar uma revolta. O resultado desse encontro forçado de diferentes etnias africanas foi a fusão dos estilos musicais. O craque desta vez é o pianista residente de Bauru, Roger Pereira, que estudou por anos o gênero com o maestro George Vidal e a pianista Silvia Góes. Em entrevista, Roger explica como esse processo de escravização e as worksongs também deram a base para o surgimento do jazz.




Em meio ao caos, surge um ritmo dançante


O jazz ficou popularmente conhecido num momento da história quando as principais capitais da Europa estavam com seus salões de festa fechados. Os estragos causados pela Primeira Guerra Mundial de 1914 a 1918 deixaram as pessoas recolhidas e com medo. Janelas eram trancadas, e os artistas se exilaram.


O mundo mudou muito desde o primeiro conflito mundial. Antes, tanto os Estados Unidos, como os países Europeus, adoravam ouvir sons que saudavam os soldados que iam para a guerra. Depois de tanto horror, porém, não chamava mais atenção os sons românticos e tonais do pré-guerra, afinal o mundo ainda estava em luto.


Por essa razão, o jazz foi um dos movimentos musicais que conseguiu, com maestria, aplacar as dores dos que viveram o conflito. Um grupo apelidado de Harlem Hellfighters, uma orquestra militar formada por músicos negros, chegou à França, em dezembro de 1917, e balançou o coração dos que presenciaram o primeiro concerto oficial de jazz na Europa. Em entrevista, Alexandre Saggiorato, doutor em História pela Universidade de Passo Fundo, conta como o mundo conhece o jazz.




O ritmo chega à terra do pau-brasil


Dando uma pesquisada rápida no Arquivo Nacional, você consegue encontrar o que seria o primeiro contato de muitos brasileiros com o jazz na televisão. O registro pertence ao programa 'Primeiro Plano' da TV Tupi na década de 60. No dia, foram apresentadas algumas bandas no auditório da Universidade Católica de Guanabara. Entretanto, a história do jazz no Brasil começa muito antes disso, em paralelo com o surgimento do ritmo na cidade de Nova Orleans.


Ary Vasconcellos, um jornalista, crítico musical, historiador e musicólogo brasileiro, argumenta que foi por volta de 1912 que chegaram ao Brasil os primeiros ragtimes. De acordo com ele, o marco da influência musical norte-americana foi por volta do ano de 1919, e que, logo após isso, o ritmo se instalou em nossos costumes. Teriam aparecido ali os primeiros foxtrotes, porém, foi só a partir da década de 1920 que a nova onda musical emplacou de maneira avassaladora.



Mesmo depois do impacto cultural e imprevisível na nação, os primeiros momentos do jazz no Brasil permanecem envoltos em uma cortina de fumaça. Isso se confirma ainda mais com os poucos autores de livros e historiadores que trataram e tratam do assunto, não chegando a consenso algum.


A prova disso é que as primeiras casas de jazz começaram a surgir em São Paulo somente no final dos anos 80. A partir de então, muitos músicos brasileiros começaram sua trajetória para trazer o cerne do ritmo à metrópole brasileira. Luís Fernando Mascaro, um baixista apaixonado por música, junto de Edgard Radesca, depois de uma visita à cidade de Nova Orleans, em 1987, ficaram obcecados pela ideia de recriar, em São Paulo, a atmosfera típica dos bares do French Quarter, o bairro mais famoso da metrópole americana.


Depois do sonho realizado, ninguém menos do que o rei do blues, B.B. King inaugurou o espaço idealizado por Luís e Edgard. No dia 13 de dezembro de 1993, com uma apresentação internacional, o cantor reuniu cerca de 500 pessoas, algo inimaginável e até então sem precedentes na cidade.



Grandes nomes fazem grande sucesso


É inegável o talento dos cantores e compositores do jazz norte e sul americanos. São grandes os nomes dos que tentaram captar a essência da arte improvisada e conseguiram como a maior destreza. Nina Simone, por exemplo, foi uma das vozes femininas mais marcantes do jazz. Dona da famosa “Feeling Good” e da parceria com Maria Bethânia, “Ready to Sing”, a cantora tem seus mais de 300 sucessos e é conhecida internacionalmente.


A intérprete mais emocionante da história do jazz também não fica para trás. Billie Holiday era dona de uma voz insubstituível que misturava rouquidão, melancolia e muita sensualidade, além de ter influenciado os rumos do jazz. Uma das músicas mais famosas da cantora é "Strange Fruit".


Não podemos deixar de lado, nomes como: Ella Fitzgerald, prodígio de afinação com uma extensão vocal inacreditável; Frank Sinatra; Charles Mingus, Miles Davis John Coltrane; Louis Armstrong; Charlie Parker e Sarah Vaughan. Isso, sem esquecer claro dos grandes nomes do jazz brasileiro: André Mehmari; Arismar do Espírito Santo; Vinicius Dorin; Hermeto Pascoal; André Hernandes; Badi Assad; Bolsa Sete e Carlos Tomati.




O jazz e a atualidade


Talvez por sua popularidade e energia, o jazz foi absorvido por outros gêneros musicais com o passar dos anos, incluindo pop, rock e hip-hop. O conhecido rap freestyle, no qual o cantor improvisa a letra, por exemplo, estabelece um certo paralelismo com o improviso dos músicos jazzistas. Os cantores pop também atuam com esses músicos, como, por exemplo, a carismática Beyoncé e a melancólica Adele.


Algumas novas promessas brasileiras e gringas, nos últimos anos, vêm ganhando um espaço nas mídias e estão dando vida nova a esse estilo musical. Como o instrumentalista Jonathan Ferr, ou também o pianista Amaro Freitas, ambos brasileiros. Sem esquecer os nomes internacionais como: Jacob Collier, Louise Woolley, e Cécile McLorin Salvant, a maior promessa vocal do jazz na atualidade.


O interessante é que 100 anos depois de seu surgimento, o jazz ainda é uma marca histórica na cultura musical. O estilo, em todos esses anos, passou a incorporar elementos eletrônicos, samplers e sequenciadores utilizados na mistura do drum'n'bass e do techno, e não perdeu sua essência, só a expandiu, como visto no jazz contemporâneo. Essa, inclusive, é uma das características mais interessantes desse embalo rítmico. Ele continua se reinventando, mas sem deixar de estudar seu passado para novas transgressões.

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