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De GLS a LGBTQIAPN+: a evolução no reconhecimento da diversidade

  • desireeassis
  • 19 de ago. de 2022
  • 9 min de leitura

Atualizado: 20 de ago. de 2022

À medida que a sociedade se torna mais inclusiva em relação às identidades de gênero e sexualidades, o mesmo ocorre com a sigla usada para as descrever; entenda o significado de cada uma.


Por Desirèe Assis, Izabela Machado e Izabela Suzuki



Junho é conhecido como o mês de celebrar as conquistas e relembrar as lutas da comunidade LGBTQIAPN+, sendo a Parada do Orgulho LGBT um dos eventos que busca dar visibilidade ao movimento. Não à toa, desde 28 de junho de 2022, o Google Trends mostrou que a comunidade LGBTQIAPN+ tem gerado interesse por conta das buscas em alta.


Segundo o levantamento, o Brasil é o segundo país no mundo que mais clicou na lupa de “pesquisa” nos últimos 12 meses. Junto à sigla, a bandeira LGBTQIAPN+ está no topo do ranking.



O internauta pesquisou tanto pela sigla que o assunto em 2022 é o maior dos últimos 18 anos para o período entre janeiro a junho (veja no gráfico abaixo). O uso da busca para descobrir mais sobre si mesmo tem sido cada vez mais frequente. Na análise, sete das quinze perguntas mais buscadas sobre LGBTQIAPN+ são dúvidas sobre o significado da sigla e das letras, como as orientações sexuais pansexual e bissexual.



Na pergunta "como saber se sou...", quatro dos 15 termos mais buscados nos últimos 12 meses são orientações sexuais: "bi", "gay", "lésbica" e "assexual". A pergunta “como saber se sou gay” teve alta de 30% na comparação dos últimos 12 meses com o período anterior. Outra com crescimento foi a de bissexualidade, com 6% de alta.




O começo: GLS no auge do pop


Quem viveu os anos 1990 provavelmente se lembra da sigla "GLS", usada para designar a comunidade que, no século XXI, é chamada de LGBTQIA+. GLS, Gays, Lésbicas e Simpatizantes, foi popularizado em 1994 no Brasil, sobretudo nos meios de comunicação e no circuito comercial, como uma espécie de gatilho mercadológico.


Gays e Lésbicas todos sabem o significado: aqueles que sentem atração pelo mesmo sexo. Mas, naquele momento, quem eram os Simpatizantes? A primeira constatação - por mais simplória que seja - é que os Simpatizantes são os héteros não-antipatizantes. Ou seja, os que apoiam o movimento.


Morte de Lacraia, precursora do movimento no Brasil, completa 11 anos em 2022 (Foto: Reprodução /ig)

Segundo uma pesquisa do IBOPE, publicada em 1993, um ano antes da oficialização da criação da sigla no Brasil, apenas 44% dos entrevistados não mudariam a conduta com o colega caso soubessem que era homossexual. Vale lembrar que nesse período não haviam grupos organizados em prol da causa.


Surge, então, a necessidade de abolir o termo Simpatizantes, pelo simples fato de que permite a criação de antipatizantes. A antipaia e discriminação abre portas para a recusa em estabelecer relações sociais e autoriza até a agressão física - cenário ainda preocupante no dia-a-dia de um não-hétero em 2022.


Para mais, a sigla GLS não é inclusiva. Ela caiu em desuso em 2008, para englobar outras identidades de gênero, sexualidades e culturas. Atitudes mudaram e a necessidade de combater o preconceito “falou mais alto”. A sigla - e a mentalidade da população - cresce para ecoar a amplitude do espectro de gênero e sexo.



O B não é de brigadeiro


Foi só em 2005, no 12° Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Transgêneros, que foi aprovada sigla GLBT, incluindo, oficialmente a letra "B" como forma de representação de bissexuais.


Assim como todas as letras dentro da sigla LBTQIAPN+, o dia a dia é marcado por lutas. Uma das batalhas vivida pelas pessoas que se identificam como bissexuais, é ser visto e respeitado como algo muito além da “indecisão” entre a homossexualidade e a heterossexualidade.


“As pessoas que nos definem como indecisos estão partindo do mesmo pressuposto homofóbico e assumindo que você pode fazer uma escolha em relação a sua sexualidade”, comenta Isabella Caparroz, de 27 anos. Fora esse preconceito, também há quem se refira aos bissexuais como promíscuos, ou seja, ainda há um longo caminho a ser percorrido.


Caminho esse que já vem sendo pavimentado desde 1999, quando um grupo de ativistas norte-americanos identificou a necessidade de uma data para celebrar a comunidade. Então, dia 23 de setembro, hoje, é conhecido como o Dia Mundial da Visibilidade Bissexual.


A decisão de escolher um dia para trazer mais atenção às pessoas que se identificam como Bi partiu de Wendy Curry, Michael Page e Gigi Raven Wilbur, que, em resposta a invisibilidade, criaram um dia que exaltasse a história da comunidade bissexual. Afinal, o B não é de brigadeiro, certo?


Curiosamente, a data também marca o aniversário da morte do psicanalista Sigmund Freud, o primeiro a tratar sobre questões envolvendo a bissexualidade.



Trans: termo 'guarda-chuva'


Segundo informações do Google Trends, após a entrada da cantora Linn da Quebrada no reality Big Brother Brasil 2022, a pesquisa por “transexual” cresceu mais de 1.300% neste ano no Google. A artista, que se identifica como travesti, chamou a atenção do público por ter “Ela” tatuado no rosto.


Linn denunciou inúmeras vezes casos de transfobia dentro do reality, quando os participantes se referiam a ela como “ele”. A cantora também compartilhou histórias comoventes sobre a construção da sua identidade e isso colaborou para que muitos buscassem entender sobre “transexualidade” no Google. Na época, só o termo “Linn da Quebrada" registrou um aumento de 1.450% na plataforma.


O Brasil tem um vasto histórico de transfobia, se mantendo há 13 anos no topo da lista dos países que mais matam pessoas trans no mundo. Apesar da transfobia ser crime no país, informações do relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU), que monitora dados globalmente levantados por instituições trans e LGBTQIAPN+, 70% de todos os assassinatos registrados aconteceram na América do Sul e Central, sendo 33% no Brasil. Há lugares mais perigosos do que o território brasileiro para ser trans.


Linn tatuou pronome "ela" como forma reafirmar seu gênero (Foto: Reprodução/ Twitter)

Essa violência piora quando se trata de mulheres trans pretas. O dossiê “Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2020″ informa que, entre os casos de assassinatos de pessoas trans, 80% são vítimas pretas ou pardas.


“É muito delicado falar sobre a intersecção de negritude com transexualidade, porque você imagina que são dois grupos muito marginalizados e a pessoa vai ter que carregar o estigma dos dois grupos”.

Gabriela Naomi, mulher transexual


A ativista formada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) finalizou sua graduação com uma autobiografia. Segundo Gabi Naomi, produzir o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC): “Imersão em mim: a construção da transexualidade para uma pessoa transexual sob o olhar de uma pesquisadora transexual”, permitiu ela se apropriar melhor de sua identidade como uma mulher trans preta.


“A construção dessa identidade não só é importante para mim, mas também politicamente e educacionalmente”, destaca.


Segunda a bióloga, "trans" é um termo guarda-chuva, em que dentro dele cabem outras designações, termos e identidades. No caso, transgênero, é toda pessoa que não está em conformidade com sua identidade de gênero.


A cultura ocidental considera dois gêneros: homem e mulher. Entre eles há uma série de hábitos, costumes, formas de se vestir e se expressar que definem o que é ser homem e ser mulher. Gabi diz que embora haja essa “duas caixinhas” da nossa cultura, “a expressão do que é ser, do que é existir, vai muito além de duas opções”.


Gabriela Naomi foi ativista do movimento trans na Unesp de Rio Claro (Foto: Reprodução /Instagram)

Já o transexual não se identifica com a identidade de gênero e também com o órgão reprodutor com o qual nasceu. Assim, uma pessoa transexual nasce biologicamente mulher, mas não se reconhece dessa forma. Apesar de ter nascido com a genitália feminina, sente-se um homem. Muitas pessoas trans recorrem à cirurgia de redesignação sexual.


De acordo com os dados divulgados pelo jornal “Gazeta do Povo”, foram realizadas 39 cirurgias na categoria “redesignação sexual no sexo masculino” em 2017, 34 em 2018 e 37 em 2019. Em 2020, houve apenas 15 - redução de 59,4% em relação ao ano anterior.


As travestis, como Linn da Quebrada, se definem como uma identidade própria de gênero. Durante o primeiro dia de recepção dos participantes do BBB 22, Linn disse que não era homem e nem mulher, mas sim travesti. Ou seja, a pessoa não necessariamente se identifica como uma mulher, mesmo que pareça feminina. A intenção de se identificar como “travesti” é a de transgredir a identidade de gênero formada pelo patriarcado ocidental.


Embora a bióloga não se identifique como travesti, Gabi Naomi disse que adora se definir como “trans-gressora”. “Isso mesmo, trans, hífen, gressora”, afirma a ativista.


“A ideia dessa palavra vai ao encontro com a minha militância e história, já que se trata de um termo que vem do latim transgressor, ou seja, alguém que vai além dos limites de algo”.

Gabriela Naomi, ativista pela causa trans


Eai, você Queer?


Na sigla LGBTQIAPN+, o “Q” inclui pessoas que se identificam como queer. Segundo o Google Trends, as datas em que a plataforma mais registrou buscas pelo termo foram entre os dias 9 a 15 de janeiro, e 26 de junho e 2 de julho.


O motivo que levou a procura e o entendimento pelo significado do termo foi o pronunciamento da filha do apresentador Tadeu Smith, Valentina Schmitt, que se identifica como queer para expressar como vive o amor e as relações afetivas. Em uma publicação no Instagram, a artista escreveu: "Sou 'queer', ou seja, no meu caso, minha orientação sexual e atração emocional não correspondem à heteronormatividade”. “Eu me amo e amo todes [uso de linguagem neutra] vocês. Essa sou eu. Simples assim", completa.


Filha de Tadeu Schmidt, usou seu perfil no Instagram para se assumir queer (Foto: Reprodução /UOL)

Mas, o que significa queer?


Mais comum no movimento fora do Brasil, o termo "queer" por muito tempo significou "estranho, peculiar, esquisito". Em 1922, o termo passou a ser utilizado como adjetivo pejorativo para homossexuais, assim como é usado “bicha, boiola, viado” no Brasil.


Porém, na década de 80, grupos militantes passaram a se autointitular de queer com o objetivo de chamar a atenção da sociedade estadunidense para a epidemia do HIV/Aids. Dez anos depois, o termo se tornou um objeto de estudo para produções acadêmicas que criticam as normas de gênero e sexualidade binárias.


Em 2021, o Google Trends já havia mencionado um grande interesse de busca na pergunta “o que é queer”, que chegou a crescer 1010% em janeiro daquele ano em relação a dezembro de 2020, colocando o Brasil como o terceiro país no mundo em curiosidade sobre o tema.


Hoje em dia, o “queer” é mais abrangente, sendo utilizado como um "guarda-chuvas" das várias possibilidades de gênero e sexualidade. O termo também serve politicamente para tudo o que é dissidente das normas de gênero e sexualidade impostas pela sociedade heteronormativa e patriarcal.


No Brasil, entre os famosos que se identificam como queers estão artistas Liniker, Pabllo Vittar, Rico Dalasam, Gloria Groove e Jaloo.



Nem feminino, nem masculino, intersexual


Intersexo talvez seja o termo mais difícil de compreender o significado. Intersexualidade não é usado para identidade de gênero ou orientação sexual. Ao contrário, serve para descrever as pessoas que nascem com características sexuais biológicas - cromossomos, hormônios, órgãos externos e internos - que não se encaixam no que se conhece como a binariedade do sexo feminino e masculino.


Para simplificar, intersexuais são como os ruivos ou os gêmeos. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), em matéria publicada em 2020, mais de 100 mil pessoas possuem características intersexuais no Brasil. Como seus corpos são estigmatizados, estão sujeitos a múltiplas violações dos direitos humanos.


Bandeira do Orgulho LGBTQIAPN+ atualizada (Foto: Reprodução /Portal Nova Mulher)

Alguns insistem em usar o termo preconceituoso “hermafrodita” para caracterizar os intersexuais. Envolto de polêmicas, o termo é arcaico e se refere a espécies não-humanas. Por isso, se pré-entende que, por não ser uma espécie humana, é necessário intervenções cirúrgicas e “corretivas”.


Em todo o mundo, inclusive no Brasil, pessoas intersexuais têm se articulado para defender o direito à autodeterminação de gênero e para combater intervenções clínicas desnecessárias. Afinal, na maioria dos casos, a operação não é uma questão de saúde, mas, sim, estética.


A medicina já mapeou mais de 40 estados intersexos. É a prova de que os seres humanos não se resumem em XX e XY. Isso porque há casos em que o órgão possui características atribuídas a um sexo, mas o mapeamento cromossômico indica o contrário. Por exemplo, quando uma pessoa tem uma vagina, mas os exames indicam que é XY (e não XX, como se esperava).


Além disso, há pessoas que nascem com alterações cromossômicas e, no lugar de XX (feminino) e do XY (masculino), são XXY.



Por último, mas não menos importante: APN+

Ainda sobre a comunidade, o “A” vem de assexual. O termo abrange indivíduos que não sentem nenhuma atração sexual por qualquer gênero. Isso não significa que não possam ter relacionamentos ou desenvolver sentimentos amorosos e afetivos por outras pessoas.


Já o “P” significa pansexualidade. Pessoas que se identificam com o termo podem desenvolver atração física, amor e desejo sexual por outras pessoas independentemente de sua identidade de gênero. Embora existam controvérsias em relação à diferença entre a bissexualidade e a pansexualidade, no fim das contas, cada indivíduo escolhe a maneira como quer ser identificado, podendo este ficar mais confortável em se dizer bi ou pan.


O “N” entrou recentemente na sigla e representa os não-binários, que são aqueles que não se identificam exclusivamente com o gênero feminino e nem com o masculino. Ou seja, pessoas não-binárias sentem que sua identidade de gênero não pode ser definida dentro das margens da binariedade. Elas entendem o gênero de forma que ultrapassa a mera identificação como homem ou mulher.


Por fim, o “+” inclui as demais orientações sexuais e identidades de gênero. O símbolo de soma no final da sigla é para que todos compreendam que a diversidade de gênero e sexualidade é fluida e pode mudar a qualquer tempo, retirando o “ponto final” que as siglas anteriores carregavam, mesmo que implicitamente.



A sigla no entretenimento


No YouTube, as buscas por LGBTQIAPN+ no Brasil cresceram 15 vezes na comparação dos últimos cinco anos com o período anterior. A alta é de +1.500%.


Música é um dos termos mais pesquisados ao lado da sigla no YouTube. Por isso, o Google Trends fez um ranking das 40 músicas relacionadas à comunidade LGBTQIA+ mais buscadas.



Separamos também uma lista com filmes, séries e documentários que abordam o tema LEGBTQIAPN+ e que podem te interessar, olha só:




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