É possível unir sustentabilidade e estilo?
- Layla Beatriz Antunes De Oliveira
- 20 de ago. de 2022
- 4 min de leitura
A indústria da moda é uma das mais poluentes que existem, mas há alternativas de produção mais ecológicas
Por Carol Dalla Vecchia e Layla de Oliveira
Por que nós nos vestimos? Na pré-história, os seres humanos passaram a cobrir seus corpos como uma forma de proteção nos dias frios ou na luta por alimento e terra. Desde então, as vestimentas se tornaram um reflexo das necessidades de uma sociedade em determinados períodos históricos. A “moda” é um sinônimo de “costume”, portanto, é um fenômeno sociocultural que expressa os usos e hábitos de um grupo de pessoas.
A seguir, a consultora de moda e estilo Cynthia Batista exemplifica como as vestimentas e os comportamentos da sociedade estão integrados.
Com isso, a moda também é pertencimento. Afinal, se vestir não é apenas um ato que serve para estar de acordo com as normais sociais ─ ela também é um mecanismo de identificação. O consumo é uma forma material de construir identidades: nós nos tornamos o que consumimos, e assim, é possível comunicar mais sobre si, de maneira visível.
No entanto, no sistema capitalista, a cultura do consumo promove uma ênfase da aparência, exposição e gerência de impressões. Isso acontece pela massificação de saberes e padrões de comportamento que interessam às classes dominantes, para que estas sejam adotadas como referência pelas classes dominadas. Como consequência, a compra e o bem-estar se fundem.
Essa busca por contentamento atrelada ao consumo, leva pessoas a adquirirem produtos que não são necessários a sua sobrevivência, mas que simbolizam um status. Mesmo sendo um comportamento, a priori, particular, ele gera rápidas transformações sociais, produzindo novas identidades entre grupos culturais. Pensando no aspecto da moda, essas mudanças de costumes podem ser classificadas como “ciclos de tendência”. Isto é, são períodos em que determinadas mercadorias e estilos ganham notoriedade, e quem segue esse modelo são reconhecidos por outros indivíduos que, de maneira semelhante, se encaixam nesse padrão.
A consultora de moda fala como as tendências são construídas na indústria.
Mas as tendências não podem viver para sempre. Dentro do sistema capitalista, as mercadorias precisam se tornar obsoletas em um curto período de tempo, criando a necessidade de serem substituídas por um novo produto: o que era atrativo ontem agora é cafona.
No áudio, Batista explica a diferença entre a moda e as “modinhas”, que podem ser definidas como ondas passageiras de interesse em uma determinada peça.
Marcas estão trabalhando com influencers no Instagram e no TikTok, e enviando roupas para que eles possam fazer seus vídeos, fotos e promover as peças. Porém, como essas empresas geralmente trabalham com mais de um produtor de conteúdo no meio digital, acontece uma saturação desses produtos nas redes sociais, por mais que seja num curto espaço de tempo. Logo, as empresas de moda enviam novamente as peças recentes para esses influencers que, de novo, saturam os feeds com um só tipo de conteúdo.
O vídeo abaixo, da youtuber Mina Le, esclarece e aprofunda mais a relação entre as redes sociais, influenciadores digitais e as marcas (para a tradução do vídeo, ligue as legendas automáticas):
O consumo desmedido demanda a produção excessiva de moda. E é aí que a fast fashion entra. O sentido de “moda rápida” trabalha com a produção de roupas em menor tempo, com menor custo, o que é conveniente numa era onde as tendências no mundo na moda estão se lançando de uma maneira cada vez mais acelerada.

A indústria da moda trabalha com o processo de criação das peças, no qual elas são idealizadas e ilustradas. Após esta etapa, segue a parte da produção das vestimentas, que compreende desde a fabricação dos materiais utilizados nas peças (sejam eles naturais, como o algodão, ou sintéticos, exemplificado pelo nylon), modelagem, corte e a avaliação para certificar que o produto está pronto para entrar no mercado.
Renato Lobo, engenheiro de produção têxtil e especialista na área, pontua cada etapa da fabricação de tecidos.
Não é surpresa que o ritmo frenético das produções na indústria do fast fashion seja prejudicial ao meio ambiente. Além dos resíduos produzidos pela produção em grande escala, esse meio ainda estimula os consumidores a jogarem fora/se livrarem de suas roupas mais antigas, já que elas não estão mais na moda, e comprarem outras peças, com uma durabilidade questionável, que provavelmente se tornaram obsoletas em um curto espaço de tempo.

Ah, então a fast fashion é a grande culpada do impacto ambiental negativo que a indústria da moda tem? Bem, não exatamente. De acordo com Lobo, é um pouco mais complexo do que isso.
Em uma entrevista de 2016, o presidente da C&A Brasil Paulo Correa -lembrando que ela é a segunda marca brasileira de moda mais lucrativa - fez declarações sobre uma produção mais sustentável nas lojas. Só que uma das preocupações é que “toda a produção nacional da fibra agroecológica (2016) seria suficiente para menos de um dia de consumo de roupas nas lojas C&A”.

Mas há alternativas. Na produção, por exemplo, é possível desfibrar peças que não tem mais interesse ao mercado, reutilizando sua matéria prima. Renato Lobo fala como é esse processo.
Ou seja, não adianta as produções se tornarem mais sustentáveis, se os hábitos de consumo exagerados continuarem os mesmos. O consumidor, de preferência, pode procurar marcas que tenham algum tipo de iniciativa ambiental na sua produção; mas além disso, deve ele mesmo se conscientizar a respeito de seu consumo.
Por exemplo, ao invés de adquirir um número maior de peças baratas, o dinheiro reservado para a compra de roupas pode ser investido em uma peça necessária de maior qualidade, desestimulando um consumo supérfluo.
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