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Jornalismo digital reduz desertos de notícias no Brasil

  • Foto do escritor: Ana  Nóbrega
    Ana Nóbrega
  • 4 de ago. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 20 de ago. de 2022

34% dos meios jornalísticos brasileiros são digitais, segundo a 5ª edição do Atlas da Notícia


Devido à portabilidade e à acessibilidade da informação digital, o público tem abandonado a mídia tradicional Imagem: Unsplash

Por Ana Nóbrega, Maria Eduarda Vieira e Vanessa Pinto Moraes


Historicamente, a atividade jornalística concentra-se nos grandes centros urbanos do Brasil, foi nas metrópoles que os primeiros veículos jornalísticos surgiram. Porém, o país cresceu e muitas cidades do interior ficaram desassistidas de meios de comunicação.


Isso é, até podem ter acesso às notícias nacionais, mas carecem de informações sobre a sua cidade e região. Esse fenômeno se chama desertos de notícias. No Brasil, 3.280 municípios são desertos de notícia - o que significa que mais de 30 milhões de cidadãos não têm acesso às informações locais. Os dados são da última edição do Atlas da Notícia, levantamento realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), que mapeia o jornalismo local do Brasil.


Além dos chamados desertos, há outras brechas informacionais. Por exemplo, cidades que têm apenas um ou dois veículos de imprensa; cidades que têm um “jornal” mas este não possui dinheiro para se manter, assim só repete reportagens de outros veículos, o que reduz o caráter local da informação.



Jornais impressos e desertos de notícias


A mídia mais tradicional quando se trata de jornalismo é o impresso. Por isso, os veículos de jornais impressos dominaram a indústria, ao lado das rádios, por décadas. As três primeiras edições do Atlas da Notícia evidenciam esse protagonismo.

As categorias de veículos são diferentes em cada um dos anos, pois os critérios do levantamento foram alterados para uma melhor precisão

Na edição que lançou o Atlas da Notícia, em 2017, os veículos de jornais impressos ocupavam o primeiro lugar no ranking de quantidade por mídia, com 3.370 veículos de jornais impressos no Brasil. Na primeira edição do Atlas, não foram consideradas as rádios, revistas e televisão.


Na segunda edição do levantamento, de 2018, foram verificados 3.368 veículos de jornais impressos no país, sendo que a categoria caiu para o segundo lugar no ranking de veículos por mídia, ficando atrás apenas das rádios jornalísticas.


O número de jornais impressos e sua posição no ranking de categorias se manteve semelhante em 2019: 3.524 veículos no Brasil; segundo lugar no ranking, atrás das rádios.


Os veículos que publicam jornais impressos, contudo, são os que precisam arcar com um dos maiores custos de produção da indústria jornalística. São necessários mais profissionais: o repórter, o editor, a equipe de impressão e a equipe de distribuição.

Em algumas regiões, como a Norte, esse custo aumenta devido à dificuldade da locomoção, seja para o fazer jornalístico ou para a entrega do produto, no caso do jornal impresso.


Por essas razões, quando o impresso era a mídia informativa mais consumida, os desertos de notícias eram maiores. De acordo com o atlas de 2017, que levou em conta o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), a quantidade de jornais impressos por habitante aumentou em função do IDHM. Como um dos três indicadores do IDHM é a renda, o levantamento constata o alto custo de produção dos jornais impressos.


O protagonismo dos jornais impressos começou a diminuir apenas em 2021. De acordo com a última edição do Atlas, a quantidade de jornais impressos no Brasil caiu para o terceiro lugar no ranking comparando todas as categorias, com 3.214.



O digital: suas vantagens e desvantagens


O meio digital se tornou uma alternativa para muitos desertos de notícias. No último relatório do Atlas foram identificados aproximadamente 449 novos meios de comunicação de caráter digital. Isso significa que muitos municípios deixaram de ser desertos devido a iniciativas online. Mas o que isso representa para o cenário jornalístico?


Com a queda do impresso, muitos “quase desertos” perderam sua classificação e se tornaram desertos de notícia. A maioria desses municípios tem apenas um ou dois meios jornalísticos, ou seja, quando eles fecham, as cidades perdem as fontes de notícias locais. Inicialmente, o avanço do meio digital afetou o jornalismo tradicional (impresso) dessas regiões, já que ninguém mais queria consumir o produto obsoleto. Só que, aparentemente, isso era apenas uma fase de transição.

Em 2022 muitos desertos de notícia perderam o seu posto devido ao crescimento do jornalismo digital

O surgimento das mídias digitais em desertos de notícia faz parecer que o fim dos meios de comunicação impressos, como jornais, foi um processo transicional: o boom da informação online. Por não terem competição, os meios jornalísticos digitais em quase desertos de notícias podem oferecer mudança na comunicação social. Afinal, eles têm espaço para crescer e padronizar como são feitas e disseminadas as informações locais, ajudando no debate e incentivando a crítica ao poder público local.


Esse último fator é importante porque muitas vezes desertos de notícia contam apenas com meios providos pela prefeitura local. Isso pode fazer com que a informação disseminada seja alterada para beneficiar aqueles que estão no poder, sem contar que a probabilidade de existir uma oposição ao governo é pequena. O surgimento do debate público por meio de mídias digitais permite que o povo se conscientize não apenas dos eventos da cidade, mas também dos problemas e suas soluções.


Como 34% dos meios de comunicação mapeados pelo Atlas da Notícia são de origem digital, não é difícil ver os efeitos da mudança de eras no jornalismo local no Brasil. Mesmo que os dados fornecidos pelo projeto sejam promissores, quando se trata das cidades pequenas brasileiras – principalmente no norte, onde a quantidade de desertos é maior — existe um problema a ser enfrentado.

O norte do país sofre com os números de desertos de notícia

O obstáculo que o jornalismo encontra com o avanço dos meios digitais é a possibilidade infinita de produzir conteúdo. Ou seja, nem todos que abrem portais jornalísticos são, de fato, formados na profissão ou em qualquer área da comunicação social. Na verdade, qualquer pessoa pode abrir um blog na internet, através das redes sociais, e fornecer informações locais de forma acessível e gratuita.


Mas até que ponto isso beneficia o trabalho do jornalista? No artigo “Influenciadores Digitais Como Parte da Disrupção do Modelo de Negócios do Jornalismo”, os pesquisadores discorrem como o avanço da influência digital pode afetar a prática da profissão. Afinal, sem conhecimento do modelo de negócio jornalístico, esses influenciadores se deixam levar pelo dinheiro da publicidade, e então, fica difícil perceber a diferença entre o que é fato e o que é pago.

No cenário nacional, o jornalismo digital avança na frente do rádio, ex-queridinho da população

Muitas vezes, esses profissionais recebem pagamento para distribuir informação em suas plataformas. Em certa quantidade, a prática não é nociva, até porque os jornais impressos também precisavam da verba dos anúncios para se bancar.


No entanto, o problema se revela quando o valor da notícia é perdido, e a valorização depende do quanto de dinheiro se ganha com a informação. Sem conhecimento da profissão, esses meios podem produzir conteúdos nocivos, como a publicação de imagens gráficas ou violação dos direitos humanos, que ultrapassam os limites estabelecidos pelo código de ética jornalístico.


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