Fyre Festival: como a internet promoveu e quebrou um festival
- Maria Julia Rosa Da Silva
- 4 de ago. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 18 de ago. de 2022
Entenda o que foi o festival de música luxuoso que cresceu em mentiras e se revelou uma fraude milionária
O quão longe um post pode te levar? Ele te faz alcançar a aclamação ou o declínio? Esses questionamentos são constantes quando presenciamos tendências na internet que se iniciam nas redes sociais, seja uma dança, uma receita, uma opinião, ou até mesmo um evento. As plataformas online mais famosas, como Twitter, Instagram, TikTok, Reddit, e Facebook são movidas pelos seus usuários e suas publicações, um centro de informação que está sempre disponível para portar ideais e opiniões, e é nelas que nascem os maiores virais.
Com a ascensão do poder das mídias sociais, a profissionalização dos influenciadores digitais evoluiu muito nos últimos anos, e gerar rendas através de publicações em perfis das maiores redes sociais do mundo se tornou o emprego dos sonhos. A grande força midiática dessas personalidades da internet já é uma unanimidade entre usuários e marcas, e a utilização das vozes dessas pessoas é, atualmente, um dos produtos mais rentáveis e efetivos, em termos de marketing e publicidade. E é unindo a influência com uma estratégia de mídia planejada que encontramos os maiores hits de marcas na internet: o Desafio do Balde de Gelo, as dancinhas do TikTok feitas para viralizar, e o maior festival que nunca aconteceu: o Fyre Festival.
Vídeo promocional utilizado para a divulgação do Fyre Festival, que utilizou as maiores e mais influentes modelos da época (reprodução: canal oficial do Fyre Festival no YouTube)
A idealização do festival
O nova-iorquino Billy Mcfarland era conhecido no meio dos negócios por ser um jovem negociador de sucesso. “Billy consegue vender qualquer coisa” era uma frase dita constantemente por seus parceiros de trabalho, e ele fazia questão de provar que a afirmação era real. O empresário, que na época tinha seus vinte e poucos anos, elaborava muitas ideias - teoricamente - revolucionárias que precisavam apenas de investidores que acreditassem em seus ideais. E foi em um encontro com o rapper Ja Rule (nome artístico de Jeffrey Bruce Atkins), que viveu seu auge artístico na década de 2000, que Billy encontrou o parceiro perfeito para o conectar à classe artística dos Estados Unidos.

Billy McFarland, a esquerda, e o rapper Ja Rule, a direita, idealizaram o Fyre unindo investidores e a classe artística (Reprodução: Mega Curioso)
A agenda artística do rapper foi a maior impulsionadora do Fyre, o aplicativo idealizado por Ja Rule e Billy para a contração dos artistas mais requisitados do meio. A ideia era comparada à plataforma Uber, em que o usuário faz a solicitação totalmente online e alcança motoristas particulares disponíveis no momento, e a ambição da dupla era que o Fyre alcançasse o mesmo sucesso, ou ainda maior. O protótipo era convincente o bastante para alcançar investidores, a equipe responsável pelo aplicativo estava com as produções quase completas, e os fundadores da empresa aguardavam ansiosamente pela última etapa: a divulgação.
A dupla Billy e Ja Rule era ambiciosa, e planejava uma entrada de peso na mídia. A sede para causar impacto levou à idealização do Fyre Festival, a experiência musical que levaria grandes bandas, cantores e DJs para se apresentarem em uma ilha paradisíaca nas Bahamas, enquanto o público aproveitaria os privilégios de uma experiência luxuosa durante o festival. Com acomodações que chegavam a U$250 mil, a ideia era unir artistas e clientes em potencial que teriam um estilo de vida e renda que se adequasse aos valores da plataforma de contratação.
Jatos particulares que levariam o público de Miami para as Bahamas, acomodações de alto nível, alimentação preparada por chefs reconhecidos, dois finais de semana de festival com alguns dos artistas mais conhecidos de 2017, essas eram as promessas constantemente reafirmadas nas promoções do evento. A experiência VIP, público alvo de todos os projetos de Billy, rapidamente se tornou um dos assuntos mais comentados mundialmente nas redes sociais. A estratégia de divulgação do Fyre Festival não se conteve apenas à presença dos criadores em eventos do nicho; a equipe de Billy e Ja Rule utilizou fortemente o marketing de influência, técnica que estava conquistando espaço de grande relevância no ambiente da publicidade na época, e perdura até hoje.
A ascensão
Um quadrado laranja. Essa foi a técnica de divulgação que a equipe do Fyre Festival utilizou para avisar ao seu público sobre o maior festival de música do mundo, como os próprios criadores descreviam. Os quadrados laranja neon invadiram as timelines do Instagram de todos os usuários que seguiam as maiores personalidades da mídia do momento. Com foco em modelos, as personalidades influentes contratadas utilizaram de seus milhões de seguidores para anunciar o evento com apenas um link que redirecionava o usuário para o vídeo promocional do evento, que apresentava o festival paradisíaco.
Um dos maiores efeitos da influência é despertar o desejo do usuário de ter o mesmo estilo de vida do influenciador que está produzindo o conteúdo, e a divulgação festival uniu a vida de luxo das modelos mais cobiçadas do mundo com imagens de férias em grupo nas Bahamas, regadas à bebida, música e festas em iates para atrair os que sonhavam com essa programação. Além das famosas das passarelas, o festival contou com a participação de influenciadores classe A de diversos países, que também iriam marcar presença no evento anunciado como o mais esperado do ano.

Os perfis mais famosos do Instagram fizeram parte da ação publicitária de divulgação do Fyre Festival. A modelo Bella Hadid foi uma das personalidades que participaram do “mutirão laranja” da campanha (reprodução: Instagram)
A estratégia de marketing utilizada pela equipe do festival foi um tiro de sucesso. Com as vendas abertas, 95% dos ingressos e acomodações foram vendidas em poucos minutos, inclusive as mais caras, o público estava ansioso para participar do maior evento de música do ano e viver a mesma experiência que as celebridades mais famosas da internet estariam vivenciando.
O Fyre Festival é um ótimo exemplo de como apenas alguns posts em perfis milionários podem ter a mesma força de uma publicidade nas avenidas mais movimentadas do mundo. A primeira fase do evento foi marcada por uma ascensão diretamente ligada à força de influência que as redes sociais têm em relação ao usuário, que consome centenas de posts diariamente, porém, o sucesso não durou muito tempo.
A queda
Apesar da campanha de marketing massiva e a promessa de grandes nomes entre os influenciadores e artistas musicais que (supostamente) estariam presentes no festival, por trás dos panos a situação se mostrava muito mais caótica e problemática do que o público poderia imaginar, como mostra o documentário Fyre: Festival: Fiasco no Caribe, da Netflix.
Faltavam dias para o início do evento, e membros da equipe de organização indicavam que a estrutura construída não daria conta do número de participantes; a verba do festival continuava caindo, e a falta de recursos era cada vez mais preocupante, com mudanças sendo realizadas de última hora para tentar contornar os problemas.

O documentário produzido pela Netflix, acompanha a produção do Fyre Festival, e entrevista ex-membros da equipe de produção e divulgação do evento. (reprodução: Netflix)
Ainda assim, McFarland e Ja Rule seguiram em frente com a realização do festival. O público começou a enfrentar problemas logo que chegaram ao aeroporto, tendo que esperar horas pelos voos e se deparando com um avião comercial regular, ao invés das aeronaves particulares promovidas nos comerciais do festival. Mas isso não era nada comparado ao que viria a seguir.
Ao chegarem no local, os participantes perceberam que não se tratava de uma ilha particular que havia pertencido ao traficante Pablo Escobar, como prometido, mas sim uma área de construção de um resort na maior ilha de um distrito das Bahamas, Great Exuma. Além disso, o cenário era de caos completo. A estrutura e organização do evento eram praticamente inexistentes; as “cabanas” que haviam sido prometidas como acomodações não passavam de tendas utilizadas em operações de auxílio pós catástrofes, e durante a madrugada ocorreu uma tempestade que encharcou os colchões e danificou diversas barracas. Faltava energia, água e acomodações (mesmo com o número de pessoas que compareceu sendo muito menor ao de ingressos vendidos), e as “refeições gourmet” se tratavam de sanduíches de queijo de baixa qualidade - passando bem longe do “momento cultural criado de uma mistura de música, arte e comida” que havia sido amplamente divulgado. A equipe não estava presente em lugar algum, e os hóspedes foram deixados sem auxílio, bagagens ou dinheiro.

Refeições no festival estavam bem distantes do que havia sido prometido nas campanhas de publicidade (Reprodução: Twitter / @TrevorDeHaas)
Logo que viram a situação em que se encontravam, os participantes começaram a denunciar as mentiras do festival nas redes socais, e não demorou muito para que as hashtags #fyrefestival e #fyrescam (a tradução literal seria #fyrefraude) subissem ao topo dos trending topics, ou assuntos do momento, no Twitter, tornando-se um dos tópicos mais comentados nas redes sociais.
Na manhã seguinte, a equipe organizadora afirmou que o festival seria adiado, e que todos que compareceram seriam enviados de volta ao aeroporto de Miami o mais cedo possível. A situação não melhorou para o público durante a viagem de volta, já que não haviam voos suficientes, e muitos acabaram ficando presos no aeroporto sem água ou comida, o que só ajudou a enterrar ainda mais a imagem do evento. E assim, após uma sucessão de erros, mentiras e tweets de denúncias, o Fyre Festival foi cancelado, sem contar com a realização de um único show entre os anunciados.
Consequências
Como resultado do evento desastroso, McFarland e Ja Rule foram ambos processados por diversas pessoas prejudicadas, com o primeiro sendo também julgado por fraude. A justiça americana descobriu que Billy havia mentido para os investidores, afirmando que sua empresa Fyre Media contava com um valor de mais de 90 milhões de dólares, quando na realidade a companhia havia gerado lucro aproximado de apenas 60 mil dólares entre 2016 e 2017.
Ele também exagerou grandemente os lucros do festival, omitiu grande parte dos custos da produção do evento em relatórios. De acordo com o veículo americano CNBC, as mentiras de McFarland custaram aos seus investidores mais de 26 milhões de dólares.

Legenda: Após o cancelamento do Fyre Festival, as fraudes de Billy McFarland foram descobertas rapidamente. O empresário foi condenado pouco tempo depois. (Reprodução: G1)
Billy se declarou culpado, e terá de pagar de volta todo o dinheiro dos investidores, além de outras dívidas decorrentes de diversos outros processos que recebeu, de ex-funcionários de sua empresa, trabalhadores das Bahamas que nunca foram pagos, e participantes do festival, por exemplo. Sua empresa foi à falência, e ele também foi condenado a seis anos de prisão em 2018; apesar disso, McFarland foi solto da cadeia em maio deste ano, e está residindo em uma casa de reintegração, onde seguirá sendo monitorado pelas autoridades americanas segundo matéria publicada pela Veja.
Ao final de tudo, o evento que prometia se tornar a próxima grande chama entre os festivais musicais, não passou de uma breve fagulha composta por promessas vazias - e uma enorme fraude.
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