Faltam recursos para cultura nas escolas de Bauru
- vignalic
- 28 de jul. de 2022
- 8 min de leitura
Atualizado: 4 de ago. de 2022
Mais de 60% das unidades não têm biblioteca, sala de leitura e ateliê de artes, aponta Censo Escolar 2021
Por Bárbara Cardi Camarini, Carolina Vignali e Eduardo Rota Hilário
Ainda é escasso o acesso à cultura nas instituições de ensino de Bauru. Das 252 escolas do município, apenas 59 possuem bibliotecas, 90 dispõem de sala de leitura, 31 apresentam ateliê de artes e 7 contam com sala de música. Os dados foram obtidos por meio do Censo Escolar da Educação Básica 2021.
As bibliotecas e salas de música estão em maior número nas unidades da esfera privada de ensino, em 37 e 4 das 108 escolas particulares, respectivamente. Já as salas de leitura e de artes estão localizadas principalmente nas escolas públicas, em 55 e 17 do total de 144 instituições administradas pela federação, estado ou município.
“O Censo Escolar é o principal instrumento de coleta de informações da educação básica e a mais importante pesquisa estatística educacional brasileira”, classifica o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Segundo reportagem da Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, as diferenças entre bibliotecas e salas de leitura vão desde a estrutura do local até as atividades oferecidas e profissionais contratados. Se uma biblioteca precisa ter funcionários capacitados (como é o caso do bibliotecário), um livro para cada estudante e prestação de serviços, as salas de leituras exigem apenas um pequeno número de obras para que os alunos façam atividades e os professores promovam leituras.
Em Bauru, outros dados do censo também podem ser explorados. Esta reportagem analisou 13 variáveis relacionadas à cultura nas escolas. Entre as dependências físicas, as variáveis analisadas são as bibliotecas, laboratórios de informática, ateliês de artes, salas de música, salas de leitura e salas multiuso para música, dança e artes.
Quanto aos materiais socioculturais e pedagógicos para atividades de ensino e aprendizagem, foram selecionados os instrumentos musicais, jogos educativos, materiais para atividades culturais e artísticas, materiais pedagógicos para a educação indígena e materiais pedagógicos para a educação das relações étnico-raciais. Além disso, a reportagem considerou o acesso à internet para uso no ensino e aprendizagem.

247 escolas têm internet, mas só 231 utilizam esse recurso para ensino e aprendizagem | Gráfico: Jornal Toca
Em relação aos espaços físicos, cerca de 9,5% das escolas do município possuem auditório, 38,5% têm laboratório de informática e 9,1%, sala multiuso para música, dança e artes. “A cultura ajuda no sentido de contextualizar e dar mais ferramentas para o aluno ler o mundo, tanto nos signos mais evidentes quanto na linguagem mais oculta, sem contar na saúde mensal”, defende a professora de Arte Fabiana Pizzigatti.
Em relação aos espaços físicos, cerca de 9,5% das escolas do município possuem auditório, 38,5% têm laboratório de informática e 9,1%, sala multiuso para música, dança e artes. “Independentemente da infraestrutura, é necessário ter a intenção pedagógica para o estímulo cultural. Escola tem pátio, quadra e corredor, por exemplo”, argumenta Gislene Victoria, formada em Educação Artística com habilitação em música.
No que diz respeito aos materiais e equipamentos utilizados em sala de aula, aproximadamente 91,6% das instituições de ensino têm acesso à internet para uso nos processos de ensino e aprendizagem; 31,3% contam com material pedagógico musical; 89,6% dispõem de jogos educativos; 75,9%, materiais para atividades culturais e artísticas; 12,3%, material pedagógico indígena e 36,5%, materiais pedagógicos para a educação das relações étnico-raciais.
A internet pode ser uma ferramenta útil para o estímulo cultural nas escolas, reconhece a professora especialista em Arte e em Educação. “Por meio de jogos digitais de aprendizagem, YouTube, museus virtuais, espaços de pesquisa que têm, inclusive, modelos de projetos culturais exitosos que ajudam os professores nas suas aulas”, explica.
Cinco escolas culturalmente mais equipadas
Dados do censo referentes à educação de Bauru mostram que somente cinco das 252 escolas oferecem o conjunto de auditório, biblioteca, laboratório de informática, ateliê de artes, sala de leitura e internet para aprendizagem. Dessas cinco, três são privadas: Colégio Chaminade, Colégio Rogacionista e FourC Bilingual Academy. As outras duas são as estaduais Ernesto Monte e Prof. Christino Cabral.
“A cultura está em tudo. No mundo globalizado, conectado e com informações chegando a todos os lugares, o aluno precisa conhecer sua identidade e cultura, apreciando e se orgulhando dela e da cultura do outro. Só assim podemos criar conexões no mundo que estamos vivendo”, explica Sara Hughes, pedagoga, economista e mantenedora da escola FourC Bilingual Academy, localizada na Vila Aviação.
Além disso, a FourC Bilingual Academy tem dentro de suas instalações salas multiuso, jogos educativos e materiais pedagógicos musical e artístico. “A escola foi feita para ser um ambiente para criação e para o pensamento crítico. Temos amplas áreas de colaboração, com salas grandes onde as pessoas vão circular e trabalhar em grupo. Raramente você vai ver os alunos sentados em fila, ouvindo alguém. Eles são os protagonistas”, diz a mantenedora.

A FourC Bilingual Academy tem 434 alunos matriculados e atende a todos os níveis de Ensino Básico
| Foto: Instagram/@fourcbilingualacademy
A escola bilíngue se apoia em quatro pilares: cidadania, cultura, colaboração e pensamento crítico. “Precisamos de uma escola para o século XXI, para formar e viver dentro das habilidades do século que nós estamos vivendo, e não uma escola do passado”, reflete. Sara destaca que o Censo Escolar não contabiliza iniciativas de inovação, como o makerspace presente na FourC. “É um espaço onde criamos conhecimentos juntos. Temos informática, robótica, eletrônica, marcenaria e costura acontecendo ao mesmo tempo. Trabalhamos para criar soluções para problemas fazendo prototipagem”, diz.
Na rede privada, o Colégio Rogacionista, situado no Parque Alto Sumaré, tem 356 alunos matriculados no Ensino Infantil, Fundamental e Médio. O censo demonstrou que, no auxílio à cultura, existem em suas dependências auditórios, biblioteca, laboratório de informática, ateliê de artes, sala de leitura, internet para aprendizagem, jogos e material pedagógico artístico.
Já no Colégio Chaminade foram encontrados diferenciais como os materiais pedagógicos étnicos e o único estúdio de dança das escolas de Bauru. A unidade fica na Vila Aviação e conta com 792 alunos em todas as etapas do Ensino Básico.
Na rede pública de ensino, a escola que apresenta maior incentivo à cultura é a Ernesto Monte, que atende 851 alunos do Ensino Fundamental e Médio na Vila Noemy. Nela, percebe-se a existência de auditório, biblioteca, laboratório de informática, ateliê de artes, sala de leitura, internet para aprendizagem, jogos educativos, materiais pedagógicos artístico e étnico. No Centro de Bauru, a escola Prof. Christino Cabral, que recebe 408 alunos do Ensino Médio, tem auditório, biblioteca, laboratório de informática, ateliê de artes, sala de leitura, internet para aprendizagem e sala multiuso.
Segundo o Censo Escolar 2021, as estaduais Ernesto Monte e Prof. Christino Cabral são uma exceção em relação ao acesso cultural, uma vez que das 144 escolas públicas de Bauru, somente as duas têm as seis infraestruturas de auditório, biblioteca, laboratório de informática, ateliê de artes, sala de leitura e internet para aprendizagem. Além disso, das cinco escolas analisadas como as mais completas de Bauru, nenhuma delas tem mais do que 851 alunos matriculados.

As cinco escolas mais completas em cultura atendem 1840 alunos em Bauru | Tabela: Jornal Toca
Cultura nas maiores escolas de Bauru
Mais de cinco mil crianças e adolescentes são atendidos pelas quatro maiores escolas de Bauru em número de matrículas. São as estaduais Dr. Luiz Zuiani, Dr. Carlos Chagas, ETEC Rodrigues de Abreu e Profa. Marta Aparecida Hjertquist Barbosa. Todas oferecem laboratório de informática e acesso à internet para ensino e aprendizagem. Ainda assim, nenhuma possui materiais pedagógicos para a educação indígena e das relações étnico-raciais.
Embora somente 12% das 252 instituições possuam esses materiais, “as demais escolas têm conteúdos das questões indígenas e étnico-raciais em várias disciplinas, dentre elas Língua Portuguesa, História e Arte. As temáticas também são exploradas nas eletivas, feiras culturais e no dia a dia escolar”, garante Gislene Victoria. A professora destaca que os livros do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) também contêm situações de aprendizagem para trabalhar essas questões com os alunos.
Entre as quatro maiores escolas da cidade, somente a ETEC Rodrigues de Abreu possui biblioteca, que está disponível aos mais de 1200 alunos matriculados no Ensino Técnico. A escola, localizada no Centro, dispõe de jogos educativos e materiais para atividades culturais e artísticas.

Alunos desfrutam dos jogos e acervo da Escola Técnica | Foto: Facebook/ETEC Rodrigues de Abreu
O cenário é o mesmo na Dr. Carlos Chagas, com exceção de que essa é a única das quatro que oferece instrumentos musicais. A escola fica na Vila São Paulo e tem 1445 matrículas nos Ensinos Fundamental e Médio. Para a professora de Arte da unidade, Gislene Victoria, a cultura colabora com o desenvolvimento pedagógico e aprendizagem dos alunos de forma plena. “Desde a alfabetização e em todas as etapas da Educação Básica e Educação de Jovens e Adultos (EJA), pois auxilia no desenvolvimento global da aprendizagem de forma lúdica”, defende.
Gislene acredita que a questão da infraestrutura cultural das escolas está mais atrelada às políticas públicas do que ao projeto pedagógico. A professora destaca que a cultura está inserida nos currículos escolares: “independentemente da infraestrutura das escolas, temos a Base Nacional Comum Curricular que norteia o currículo das instituições de ensino em âmbito nacional”.

Marta Aparecida, Luiz Zuiani e Carlos Chagas não têm biblioteca, mas possuem sala de leitura
| Tabela: Jornal Toca
A escola Profa. Marta Aparecida Hjertquist Barbosa é a única das quatro com ateliê de artes, sala multiuso e sala de música, embora não disponha de instrumentos musicais. A unidade fica na Vila Industrial e tem 1200 matrículas no Ensino Fundamental.
Dr. Luiz Zuiani é a maior escola do município, com 1501 matrículas entre os Ensinos Fundamental e Médio. Dentre as treze variáveis, a unidade localizada no Parque Paulistano possui auditório, sala de leitura, instrumentos musicais e jogos educativos. Embora o censo não indique a presença de uma biblioteca, os professores garantem que a sala de leitura é o espaço com a mesma função, muitos livros e funcionários que realizam trabalhos temáticos.
“Eu sempre vejo alunos lendo, a biblioteca tem uma boa movimentação, mas não é uma movimentação demonstrativa. Eu percebo que muitas vezes o acesso tem relação com a falta de bagagem e referência culturais”, afirma a professora de Arte da escola Zuiani, Fabiana Pizzigatti.

A maior escola de Bauru não tem biblioteca, mas possui sala de leitura com acervo de livros
| Foto: Facebook/EE Zuiani
Segundo Fabiana, o auditório da unidade se tornou multifuncional para atividades artísticas, como dança e teatro, por ser plano e possuir espelhos. “Agora, quanto à música, não tem praticamente nada”, explica a professora, mesmo que o censo aponte a existência de instrumentos musicais.
“A escola grande tende a ser mais comum e tradicional, é a réplica de uma educação que tivemos no passado. Mal não é, mas hoje são outros os desafios e as habilidades de conhecimentos necessárias para quem está aprendendo”, comenta Sara Hughes. Sobre a relação entre cultura e número de alunos, a mantenedora da FourC considera que o foco de investimentos de uma escola interfere mais do que as matrículas que ela possui.
Desvendando a educação da cidade
De acordo com o Censo Escolar, cerca de 43% das escolas de Bauru pertencem à rede privada de ensino, o que representa um total de 108 instituições particulares no município. Aproximadamente 57% das escolas são públicas, o equivalente a 144 instituições. Quanto aos níveis escolares oferecidos na cidade, 143 escolas abrangem o Ensino Infantil, 117 possuem Ensino Fundamental e 64, Ensino Médio. Uma mesma instituição pode fornecer mais de um nível ao mesmo tempo.
Quanto à cor e raça dos estudantes locais, 251 escolas da cidade têm matrículas de alunos que se identificam como brancos; 171, matrículas de alunos que se identificam como pretos; 131, matrículas de alunos que se identificam como pardos; 110, matrículas de alunos que se identificam como amarelos e 56, matrículas de alunos que se identificam como indígenas. 23.686 alunos não declararam cor e etnia no censo.

Maioria das instituições de ensino de Bauru pertence à esfera pública | Gráfico: Jornal Toca
Em cinco anos, o número de escolas com bibliotecas cresceu no município de Bauru. Segundo o Censo Escolar 2016, 16,5% de todas as escolas tinham bibliotecas, enquanto 23,4% é a porcentagem em 2021. O acesso à internet nas unidades (não necessariamente para a educação dos alunos) também aumentou de 93,9% em 2016 para 98% em 2021. Segundo a última pesquisa, em 91,6% das escolas, o acesso da internet é usado nos processos de ensino e aprendizagem.

A biblioteca é a única variável que cresceu nas escolas de Bauru em cinco anos | Gráfico: Jornal Toca
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