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As peças italianas de William Shakespeare, que nunca saiu da Inglaterra

  • Foto do escritor: Layla Beatriz Antunes De Oliveira
    Layla Beatriz Antunes De Oliveira
  • 12 de jul. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 15 de jul. de 2022

Por que o dramaturgo tinha a Itália como influência para a maioria de suas obras?


Por Carol Dalla Vecchia e Layla de Oliveira


Retrato de William Shakespeare. Foto: divulgação


‘Romeu e Julieta’, ‘Otelo’, ‘A Megera Domada’ e outras onze peças de William Shakespeare têm algo em comum: todas estão relacionadas com a Itália ou fazem referências a obras de autores italianos. Mas, curiosamente, o autor considerado como o maior dramaturgo da literatura inglesa nunca deixou o seu país natal.


Dado o sucesso das narrativas teatrais citadas, alguns estudiosos até passaram a questionar a relação do escritor com a cultura italiana. Como é o caso do jornalista Santi Paladino, que em 1927 publicou uma reportagem em que defendia a tese de que o próprio William Shakespeare teria nascido no território da Bota. O conhecimento do dramaturgo sobre o território e disputas políticas italianas era considerável, especialmente em uma época onde o fluxo de informações era limitado e as notícias não alcançavam territórios longínquos com rapidez.


Uma das alusões mais memoráveis é da tragédia ‘Romeu e Julieta’, uma das primeiras peças do inglês. As famílias ‘Montecchio’ e ‘Cappelletti’ têm a sua existência e autenticidade comprovada por documentos de Verona. E, apesar do mesmo não ser aplicado ao casal protagonista, um italiano contemporâneo a Shakespeare, Giralomo della Corte, afirma que os dois amantes de fato haviam existido e vivido um relacionamento em 1303. Mas como o autor, na Inglaterra, teria acesso aos acontecimentos de uma cidade no norte da Itália?


Romeu e Julieta. Foto: divulgação


O renascimento italiano e a era elizabetana


Shakespeare, natural de Stratford-upon-Avon, deixou a família e mudou-se para a cidade de Londres, buscando oportunidades na área cultural. O historiador Renan Fernandes caracteriza a cidade, na época, como “desnorteante ou até letal”. Mesmo com uma alta taxa de mortalidade, Londres continuava atraindo um alto fluxo de migrações por conta da possibilidade de ascensão econômica em diferentes atividades. “E seus estabelecimentos educacionais, livreiros, teatros e alta taxa de alfabetização levavam aos moradores da cidade a pensar no resto da nação como um deserto cultural”, continua Fernandes.


Após um período de conflitos entre católicos e protestantes e as e guerras entre as famílias nobres da Grã-Bretanha, a Inglaterra vivia o período que, mais tarde, seria chamado de “época elisabetana, onde ocorre a valorização da arte, a reorganização social e a consolidação da religião anglicana”, como explica o historiador. De fato, essa configuração da nação inglesa, somada “a novíssima crença na ética dissociada da religião” eram uma oposição às práticas feudais que, segundo Fernandes, eram comuns ao subjetivismo renascentista.


Apesar de a terminologia ‘Renascimento’ ser vista como uma definição conflituosa entre os historiadores, Renan Fernandes aponta que o termo refere-se à “segunda metade do século XV e à primeira metade do século XVI, conciliando a idéia de uma sociedade que “renasce” em sua constituição cultural, retomando como inspiração as fontes puras e plenas de sabedoria, de beleza e arte encontrada nas civilizações greco-romanas da Antiguidade Clássica”.


A Itália daquele período, apesar de ainda não ser uma nação unificada, foi a sociedade na qual o renascer cultural foi mais evidente e significativo. É dali que se destacam os nomes que compõem seu repertório, como Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Rafael. Desse modo, Fernandes conclui que as potencialidades das expressões artísticas italianas correspondem “ao germe de toda a cultura europeia” e geram os “padrões estéticos e artísticos do qual surgiria o modelo para todas as outras culturas”.


William Shakespeare, por sua vez, não fazia uso das influências italianas apenas por se identificar com o pensamento humanista da renascença. Seguindo a tendência de distanciamento do feudalismo, o autor se posicionava a favor do Absolutismo, da nobreza inglesa e de sua associação à classe média que ascendia em Londres. Renan Fernandes explica que a ideia de Shakespeare era mostrar ao público que a Inglaterra vivia uma ordem social que se contrapunha com “configuração política fragmentada e disforme” das Cidades-Estado italianas. Em suas obras, o escritor idealizava a Itália “como uma terra conturbada por inúmeros problemas, mas onde o amor e a virtude genuína eram capazes de vencer, semelhante ao que aconteceu na Inglaterra”, continua o historiador.


A Criação de Adão, de Michelangelo. Foto: divulgação


Afinal, por que a Itália não produziu nenhum Shakespeare?

Mesmo sendo o território precursor do movimento renascentista, com práticas culturais que retomaram as concepções clássicas dentro da arte e as adaptaram para a época, a Itália não tinha as condições necessárias para criar um dramaturgo com as peculiaridades shakespearianas. Logo quando o teatro italiano estava tomando forma para se tornar grandioso, a chegada da Contra Reforma, de acordo com Renan Fernandes, “fez fenecer as melhores flores do espírito italiano”.


Enquanto isso, a Inglaterra elisabetana começava a abarcar os princípios do Renascimento, e foi marcada por uma diversidade de conflitos que acabou por inspirar Shakespeare. As disputas pelo reinado, problemas econômicos e a instabilidade religiosa conferiram um campo de tensões para a sociedade inglesa, mudando a estruturação do corpus intelectual e as manifestações artísticas daquele período.

Shakespeare não possuía o status de dramaturgo e nem era formado por universidades prestigiadas. Mas o teatro elisabetano, apesar do descrédito enquanto arte por uma parcela da população, abriu possibilidades para atores e escritores dos textos dramáticos. A arte crescia, e os palcos recebiam influências dessas experiências de desavenças políticas, preceitos individualistas e o humanismo. E com o crescente gosto pela tragédia e a popularização dos textos, pessoas comuns puderam escrever suas peças e receberem prestígios da população.

Portanto, nas palavras de Renan Fernandes, a Itália não havia “o campo fértil para sua sistematização e produção” de obras que poderiam se aprofundar nos dramas vivenciados pela sociedade. Ele ressalta que as práticas culturais se ligam ao momento de criação no plano histórico, já que “se configuram diretamente à relação com os vários modos de pensar e agir de uma sociedade, produzindo as bases necessárias para que estas manifestações artísticas se configurem como representações.”

Rosangela Patriota, historiadora especializada em teatro, ressalta a importância do contexto histórico-cultural ao analisar as obras de um dramaturgo. É necessária “atenção com o momento da escrita”, para que se possa “estabelecer as interpretações que foi obtendo, ao longo do tempo, por parte dos estudiosos e/ou críticos teatrais.”


Retrato de William Shakespeare. Foto: divulgação


Roube como um artista


De volta às alusões italianas de ‘Romeu e Julieta’, ainda resta saber como o autor teve conhecimento dos contextos sócio-político-econômicos de Verona, mesmo que não tenha deixado a Inglaterra. Em uma análise jurídica da tragédia, o teórico em direito, Cristian Kiefer da Silva, cita os antecedentes literários da peça teatral segundo a classificação de Rainer Souza em “Romeu e Julieta: romance ou história?”.


Tendo em vista as produções culturais que precedem os amantes de Verona, Shakespeare não precisaria, exatamente, conhecer a cidade e sua história para se apropriar das famílias rivais. Cristian relembra que “Dante Alighieri, em ‘A Divina Comédia’, cita duas famílias rivais na política e no comércio, os ‘Cappelletti’ e os ‘Montecchio’”. Além disso, mesmo que os documentos comprovem a existência de tais nomes, não é possível esclarecer se viviam na Península Itálica e se eram mesmo rivais como na obra de Alighieri.


Mas ‘Romeu e Julieta’ não bebe apenas das inspirações de ‘A Divina Comédia’. Como o historiador Renan Fernandes apontou, o Renascimento italiano era uma retomada natural das produções da Antiguidade. Sendo assim, o texto de Rainer Souza evidencia as referências do romance trágico entre Píramo e Tisbe, narrado pelo poeta Ovídio em “Metamorfoses”, e das histórias de Xenofonte de Efésios, que descreveu elementos semelhantes aos da peça shakespeariana nos seus “Contos Efésios” - a mais notável é a criação da poção miraculosa que induz a um estado de morte aparente.


E não para por aí: em sua análise, Cristian cita o conto 33 de Masuccio Salernitano intitulado “Il Novellino”. Publicado em 1476, ele conta a história de Mariotto e Gianozza, que se tornou muito popular na Itália, em várias versões. “Os mesmos eventos que Shakespeare utilizaria muitos anos mais tarde na sua versão foram descritos por Masuccio, com exceção da localidade, que ele situa em Siena, outra importante cidade italiana e do final, no qual Mariotto é decapitado e Gianozza morre de profunda tristeza”, finaliza o teórico.



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