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Você não precisa ser uma supermãe: desmistificando a depressão pós-parto

  • desireeassis
  • 25 de jul. de 2022
  • 5 min de leitura

A jornalista Mariana Queiroz fala sobre os desafios da DPP, a importância de procurar ajuda e que está tudo bem não ser uma mãe perfeita.


Por Desirèe Assis e Izabela Suzuki


Dá para imaginar um momento mais feliz para uma mãe do que a chegada de seu tão esperado bebê ao mundo, depois de longos nove meses de gestação? Quando se imagina a cena, vem à mente a mulher sorrindo, com seu filho saudável, em meio a roupas coloridas e bichos de pelúcia. Mas, nem sempre é exatamente assim.


Algumas mães, mesmo nesse contexto positivo, vivenciam tristeza e melancolia. Na maior parte dos casos, trata-se da depressão pós-parto (DPP). Segundo um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicado em 2016, no Brasil, uma em cada quatro mulheres - ou seja, ao menos 25% delas - apresenta os sintomas de depressão no período de 6 a 18 meses após o nascimento do bebê.


A DPP é uma condição que se caracteriza pelo prolongamento de uma variedade de mudanças físicas e emocionais que muitas mulheres têm depois de dar à luz. Os indícios centrais são os mesmos de qualquer depressão, os sintomas variam e podem incluir: inquietação, tristeza excessiva, dores pelo corpo, palpitação, insônia, fadiga, falta de apetite, culpabilidade, inutilidade, preocupação exagerada e medo.



Supermães, rede de apoio, mudanças hormonais e o que isso tem a ver com a DPP


É o caso da Mariana Queiroz, mãe do Heitor de 6 anos e do Arthur, de 3 anos. Mesmo após uma primeira gravidez tranquila e planejada, foi justamente na sua segunda gestação que ela vivenciou um caso de depressão pós-parto. Em meio a rotinas diferentes com o seu marido e uma ligeira incerteza sobre ter ou não ter um segundo filho, a jornalista relata que durante os noves primeiros meses, muitas coisas aconteceram para que o quadro de DPP acontecesse.


Entre elas, está a questão física e hormonal. Devido a alta dosagem dos remédios para repor os hormônios da gravidez, 40 dias depois após o nascimento de Arthur, o seu hipotiroidismo acabou se tornando um hipertiroidismo, e isso afetou o seu psicológico. “Eu comecei a desenvolver um tipo de neurose, eu achava que não estaria mais aqui para cuidar dos meus filhos e que iria deixar duas crianças sozinhas”, explica.


Mariana Queiroz e seus filhos, Heitor, de 8 anos, e Arthur de 3 anos

Inclusive, isso também afetou um dos momentos que ela mais gostava: a amamentação, que geralmente era acompanhada do sentimento da culpa por não conseguir exercer o que é considerado pela sociedade como um dos principais papéis de uma mãe - culminando em uma romantização da gravidez e frustrando muitas mulheres que sonham com esse momento.


Mariana conta que a primeira pessoa que ela procurou foi sua obstetra, e após alguns testes, o resultado era, de fato, um caso de DPP. Depois de entrar com os remédios - entre eles o ansiolítico e o antidepressivo -, a jornalista iniciou o processo de terapia logo nas primeiras semanas após identificar o quadro.


“Hoje eu vejo que, talvez, isso era uma coisa que eu precisava passar, eu vejo que tenho uma ligação diferente com o Arthur, um tipo de conexão devido ao que passamos juntos. Claro que nem tudo está totalmente esclarecido e digerido no meu íntimo, mas essa foi uma experiência que me ajudou a ser uma mãe melhor, a ser mais compreensiva comigo mesma, a aceitar mais as minhas falhas e de que eu preciso de ajuda e de uma rede de apoio”.

Mariana Queiroz, jornalista e mãe de dois filhos


Para ela, uma rede de apoio é quando se tem aquelas pessoas que vão te apoiar em um momento que, se tudo pode ser alegria para uns, para outros, é tomado por angústias. “É ter um chão sólido onde pisar, e ter pessoas que vão te amparar e se for necessário, até mesmo cuidar daquele bebê se você não está bem naquele momento”, divide a jornalista.


Muitos outros fatores podem levar uma mãe a sofrer com a depressão pós-parto, sejam as cobranças para que ela se torne uma supermãe, com dupla jornada dentro e fora de casa, ou alterações hormonais e físicas. Apesar de ser comum no mundo todo, a DPP ainda pode ser vista como incapacidade ou tabu por muitas pessoas.


Contudo, é uma condição que precisa de apoio, atenção e tratamentos convencionais ou alternativos.



Tratamento para além do medicamento: a importância da holística


Mariana Queiroz durante a gravidez do Heitor, seu primeiro filho

Desde a gravidez, a mãe passa por alterações hormonais e físicas naturais nesse período. Também no puerpério, a mulher encara a fragilidade física, emocional e psicossocial ao mesmo tempo. O corpo se recupera do parto e os hormônios, mantidos em alta durante a gestação, despencam. É nesse momento que adaptações precisam ser feitas, principalmente se desencadeado um quadro de DPP.


“Nasce um bebê, nasce uma mãe”. É assim que a psicóloga Gabriela Birolli da Costa, de 33 anos, define o momento do puerpério. Aprender a lidar com as situações do dia-a-dia, as rotinas, incluindo ministrar o humor, fazem parte deste período.


Contudo, algumas vezes o próprio contexto em que esta mulher está inserida afeta e se reflete no agravamento de uma DPP: desde a mulher pensar que deve ser uma supermãe, o que não é realista e provoca estresse, até ter sentimentos de perda – perda de controle, perda de identidade (quem era antes do bebê) ou perda da silhueta magra.


É nesse sentido que deve-se abrir as portas, conforme explica a psicóloga, para o tratamento holístico e práticas integrativas. Ou seja, para além da dimensão saúde-doença, levar em consideração, também, os aspectos, emocionais, físicos, mentais, espirituais e sociais que acarretam a condição.


“Por mais que existam essas mudanças sociais, já que agora ela precisa mudar a vida dela para caber esse bebê, é muito importante a rede de apoio e cuidar da saúde mental. E esse último envolve medicamentos e terapia, mas, principalmente, atividades prazerosas que antes ela fazia, mesmo que não na mesma intensidade”.

Gabriela Birolli, psicóloga


Entre os principais impactos da DPP na vida desta mulher, Gabriela destaca as dificuldades nas relações interpessoais, o isolamento por acreditar que o que ela está passando é incompreensível e, em especial, a amamentação - como ocorreu com Mariana.


Mariana Queiroz passou pela depressão pós-parto na gravidez do seu segundo filho, Arthur, de 3 anos

É natural, segundo a psicóloga, que a mulher também a procure por conta de conflitos de casal, seja ela hetero ou homoafetivo. Isso porque, alguns pais não compreendem a fase do puerpério que ela está atravessando e dificultam o relacionamento afetivo.


Gabriela aproveita para lembrar que os homens também podem desenvolver uma depressão pós-parto. Pouco falado e por vezes considerado um tabu, a DPP masculina é silenciosa, mas, ainda assim, estima-se que cerca de 10% dos pais sofram depressão no primeiro ano após o nascimento do bebê.


Por essas e outras, a depressão pós-parto precisa ser pautada e discutida. Encarar a maternidade com seus altos e baixos pode ajudar mães a viverem momentos de leveza e desfrutar da alegria de ter e ver seu coração batendo fora do peito.


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