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Pratos vazios: o retrato da fome no Brasil

  • Foto do escritor: Victoria Roberta Alves Dos Santos
    Victoria Roberta Alves Dos Santos
  • 4 de ago. de 2022
  • 10 min de leitura

Atualizado: 21 de ago. de 2022

por Felipe Wiira e Victória Roberta


Não há nada de novo sob o Sol. Uma velha inimiga, a fome, tem batido à porta de 33 milhões de brasileiros. Outros 125 milhões têm amargado a insegurança de não saber o que comer. Os dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), apontam alarmantes perspectivas sobre o horizonte da fome no Brasil diante da crise causada pela pandemia de Covid-19.


Diante desse panorama, a cidade de Bauru segue como o restante do país. Com mais de 70 mil bauruenses vivendo em situação de vulnerabilidade social, as dificuldades e o reflexo do agravamento alimentar culminado pela pandemia. O retorno do país ao Mapa da Fome revela a face insegura do país, em todos os aspectos. O levantamento que não era realizado desde 2015, ano que o Brasil já não ocupava mais essa classificação. E em 2018, antes mesmo da crise sanitária global, o país havia retornado ao Mapa da Fome.


Em contraste, ainda em 2018, o Brasil conquistou a medalha de bronze no pódio dos países exportadores agrícolas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Os critérios para que um país seja incluído no levantamento, é possuir mais de 2,5% da população com falta crônica de alimentos. O Brasil atingiu a marca de 4,1% na última classificação.



Insegurança Alimentar


A Segurança Alimentar é definida pela garantia do acesso sem limitações à quantidade e qualidade necessárias para a vivência. Assegurando a saúde e bem estar da população. Segundo o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2020” (State of Food Security and Nutrition – SOFI), a insegurança alimentar nos níveis moderado e grave aumentou em 13% entre os anos de 2016 e 2019.





De acordo com o Conselho Federal de Nutrição, a insegurança alimentar pode ser classificada em três níveis: leve, moderado e grave. A insegurança alimentar considerada Leve é quando há incerteza sobre a disponibilidade de alimentos com a qualidade nutricional inadequada no futuro.


O grau classificatório Moderado é quando há a redução da quantidade de alimentos dos adultos e até alterações nos padrões alimentares por conta da falta de alimentos. O nível mais crítico de insegurança alimentar é o Grave, quando há a redução dos alimentos também entre as crianças e mudanças na dinâmica familiar de alimentação causadas pela ausência de alimentos. Nesse grau, a fome passa a ser uma realidade.



Quem passa fome no Brasil?


Entre as tantas pessoas com fome no Brasil, podemos perceber um padrão. As características se repetem nas 125 milhões de faces que se enquadram na insegurança alimentar. Lares chefiados por mulheres, compostos por pessoas negras, e com baixa escolaridade: o padrão se repete pelo país.



No levantamento, cerca de 48% das casas chefiadas por homens estavam seguros quanto à alimentação. Esse número cai nas moradias que possuem as mulheres como responsáveis, quando apenas 37% das casas apresentaram essa classificação. Ou seja, seis em cada dez casas que possuem uma mulher na liderança se encontram em insegurança alimentar.


Já pessoas negras também se enquadram em proporção semelhante: 6 a cada 10 domicílios chefiados por pretos ou pardos viviam em algum nível de insegurança alimentar. Em contrapartida, mais da metade das casas chefiadas por pessoas brancas possuíam segurança alimentar.


“Muitos estudos demonstram que existe uma relação inversa entre renda familiar e a presença de insegurança alimentar, ou seja, nos domicílios com menor renda familiar per capita seus moradores estão mais sujeitos à baixa capacidade de acesso aos alimentos e a níveis de insegurança alimentar mais severos.” acentua o relatório.

Os dados do II VIGISAN, em mais de 90% das casas com renda per capita inferior a 1/4 de salário mínimo, cerca de R$300,00 na ocasião, possuíam algum grau de insegurança alimentar. Em 70% dessas habitações houve a restrição de alimentos, e quatro a cada 10 casas se depararam com a fome.


Com o desemprego acentuado no período pandêmico, a busca de meios alternativos também cresceu para sobreviver e (tentar) driblar a fome. O endividamento, venda de bens ou equipamento de trabalho, e até a interrupção dos estudos atingiu mais de 40% das famílias em insegurança alimentar.



Lares chefiados por mulheres possuem maiores índices de insegurança alimentar | Foto: Paulo Paiva/G1


Retrocesso: a volta ao cenário de 2004


Diferente do que se vê hoje, o Brasil já foi referência mundial no combate à fome. Entre os anos de 2004 e 2013, o país se destacava pelas políticas públicas desempenhadas no território. Em 2004, 9,5% lares brasileiros se encontravam na miséria, com a redução para 4,2% dos lares em situação de pobreza extrema.


O I VIGISAN, realizado em 2020, apontou que o país retornou aos índices de 2004. Entretanto, dois anos depois, os domicílios em situação de fome saltaram de 9% para 15%, ou seja, 33 milhões de brasileiro estão passando fome. O retorno do país a patamares anteriores do começo do século XXI aconteceu coincidentemente no ano seguinte ao encerramento das atividades do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. O Consea foi um órgão colegiado brasileiro de assessoramento imediato à Presidência da República. Entre as suas funções, o órgão era responsável pela coordenação de programas federais no combate à insegurança alimentar.


O 1º Consea foi criado em 1993, quando o seu antecessor, Ação da Cidadania mobilizou instituições e abriu caminho para a criação do do Plano de Combate à Fome e à Miséria pelo Governo Federal. Em 2003, o combate à fome foi retomado enquanto estratégia pelo programa Fome Zero.


Com diversas políticas públicas desenvolvidas no combate à insegurança alimentar, o Conselho chegou ao fim em 2019. O Consea foi extinto por meio da Medida Provisória nº 870 de 1° de janeiro de 2019. No dia 23 de Setembro do mesmo ano, o conselho foi extinto definitivamente, em votação no Congresso Nacional.



O que é o mapa da fome da ONU?


O mundo acabara de enfrentar duas guerras mundiais. Foi nesse cenário que surgiu a Organização das Nações Unidas pela Alimentação e Agricultura (FAO). Essa diretriz da ONU foi implementada para identificar e erradicar a fome no mundo e teve em 1946 a sua primeira pesquisa e catalogação da situação mundial em relação à fome.


Apesar de reconhecer que a primeira edição desse estudo era conhecidamente impreciso, principalmente se comparado às possibilidades de análise atuais, a ONU coloca esse movimento como uma importante inovação.


Saindo do clima pós-guerra, a FAO seguiu se atualizando, chegando até o momento que se relaciona de maneira mais próxima com esse texto. Isso porque, em 2000, surgiram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Eram oito metas bases para todos os países da ONU, e englobam alguns direitos básicos como igualdade entre gênero, reduzir mortalidade infantil, respeito ao meio ambiente e dentre eles, erradicar a fome.


Era com base nestes oito objetivos que eram definidos os países no Mapa da Fome da ONU. E foi dentro dessa métrica que o Brasil passou de um dos países que sofria com a fome para um dos símbolos de destaque no combate à desnutrição. Segundo o relatório de 2014, o último baseado no ODM, o Brasil conseguiu atingir a meta de reduzir pela metade a porcentagem da população que sofria com a fome.


No entanto, no ano seguinte, em 2015, os métodos de análise para o Mapa da Fome se alteram, para seguirem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Estes colocavam 17 metas para os países atingirem até 2030. O hiato brasileiro durou pouco. Após deixar essa classificação em 2014, o país voltou a apresentar dados condizentes com o Mapa da Fome em 2018, segundo o IBGE, e retornou aos indicadores da FAO em 2021 e 2022.


De qualquer forma, o mapa mundial da fome infelizmente demonstra que inúmeros países também demonstraram aumentos nos casos de insegurança alimentar. Nesse cenário, podemos analisar em qual patamar está o Brasil quando comparado com outros países, reservando as devidas proporções. Analisamos, portanto, uma comparação estatística entre a porcentagem de pessoas em situação grave de insegurança alimentar em relação ao total do país, além de considerar também o número total de pessoas que passam fome.


Imagem: Organização das Nações Unidas

Isso porque, a partir dos dados da Organização das Nações Unidas, o Brasil se coloca, percentualmente, ao lado de pequenos países em sua maioria. No entanto, a disparidade fica ao colocarmos nosso país ao lado de nações economicamente paralelas ou também relevantes ao globo. Outro ponto de destaque nos números é a quantidade absoluta de pessoas passando fome no Brasil quando comparada com a totalidade de outras nações.


1 - A comparação percentual

O Brasil chegou a situação de ter 7,3% da sua população em situação de insegurança alimentar grave segundo a FAO. Apesar do número ser consideravelmente menor do que o apresentado pelo II VIGISAN, que já considera os impactos da pandemia e coloca o sarrafo em 15,5% dos brasileiros.


No entanto, para manter em consideração a mesma base estatística, utilizaremos os números percentuais divulgados pelo sistema de dados da Organização das Nações Unidas pela Alimentação e Agricultura. Considerando o mesmo período analisado, entre 2019 e 2021, a porcentagem brasileira seria a 80ª do mundo. Os 7,3% que passam fome colocam o Brasil entre seus vizinhos, Suriname, com 7,2%, e Uruguai, com 7,3%. Outras nações que compõem essa faixa são Mauritânia e Egito, com 7,2% e 7,1%; e Barbados e Granada, com 7,4% e 7,5%.


Contudo, com a exceção do Egito, que é uma nação com população semelhante em números ao Brasil, a quantidade de habitantes dos outros países, somados, não chegam à população paulistana. Enquanto São Paulo contém mais de 12 milhões de habitantes, os países citados somam cerca de 9 milhões.


2 - A comparação absoluta

Já em números absolutos, os 7,3% em situação de insegurança alimentar grave, segundo a FAO, representam cerca de 15,4 milhões de brasileiros que passaram fome entre 2019 e 2021. Aqui, a análise dos dados da ONU têm alguns obstáculos, já que muitos países não apresentam dados consolidados. Por exemplo, países como o Chade ou o Iêmen, que aparecem como alguns dos piores colocados no Global Hunger Index — um ranking que considera alguns pontos como subnutrição, crianças com subnutrição crônica, entre outros dados — não têm informações solidificadas nos dados da ONU.


Ainda assim, entre os 146 classificados pela FAO, com dados oficiais dos países ou estimativas da organização, o Brasil aparece como o sexto país com mais pessoas em situação grave de insegurança alimentar, empatado com a Tanzânia. Os únicos à frente com dados informados são Nigéria, Congo, Etiópia, Paquistão, e Bangladesh.


3 - A comparação econômica

Por fim, podemos relacionar o Brasil com seus semelhantes econômicos. Aqui, utilizamos a medida do Produto Interno Bruto em dólares americanos como uma padronização das grandes economias mundiais. Afinal, o Brasil se coloca como uma das maiores economias do mundo, e segundo o levantamento da Austin Rating, considerando as projeções de 2022, o Brasil ocupa o lugar de 10ª economia do mundo.


Considerando esse fato mesmo com a recente crise inflacionária no país, o Brasil portanto pôde se colocar entre países como Austrália, Coreia do Sul, Itália, Canadá e França. No entanto, quando vemos os resultados da fome, a disparidade é gigantesca.


Isso fica evidente na porcentagem de pessoas na situação de insegurança alimentar grave, segundo a Organização das Nações Unidas. Enquanto o Brasil lamenta os 7,3% da população que passam fome, considerando o período entre 2019 e 2021 dos dados, os semelhantes econômicos apresentam outra realidade.


Dentre os citados acima, o mais próximo da triste realidade brasileira é a Austrália, com 3,6% da sua população nessa situação. Junto com o Brasil, um país que se dispersa da aparente realidade das grandes economias é o Irã, 14ª economia do mundo que coloca 7,7% dos habitantes na insegurança alimentar grave.


Enquanto isso, Coreia do Sul, França, Canadá e Itália já desenham um cenário diferente, com suas porcentagens rondando o 1% da população. Ainda que não seja o ideal, já que um dos objetivos da Agenda 2030 é a fome zero, o cenário é muito menor.



Projetos que lutam contra a fome


Junto com a situação agravante da fome no Brasil, aparecem também organizações e movimentos sociais que tentam mitigar os efeitos da insegurança alimentar. Apesar do poder de mudança ser pequeno perto do universo de dados que o II VIGISAN e a FAO apresentam, essas campanhas conseguem ter efeito direto na vida de milhares de pessoas.


Cozinhas Solidárias - MTST


Apesar de não ser a única causadora da fome, a pandemia foi um agente central para o aumento da insuficiência alimentar, não só no Brasil como no mundo. Foi nesse cenário pandêmico que o Movimento Trabalhadores Sem Teto (MTST) iniciou a organização das Cozinhas Solidárias. O projeto tinha como objetivo primário o combate à fome no cenário pandêmico.


Com a pandemia da COVID-19 e o combate muitas vezes ineficaz contra à doença por parte do Governo Federal, o cenário pandêmico agravou a fome tanto no desemprego, quanto na inflação sobre os produtos básicos da alimentação. Considerando isso, o MTST inaugurou em 13 de março de 2021 a unidade de Brasilândia, em São Paulo, a primeira de mais de 30 cozinhas que viriam no ano seguinte.


Cozinhas Solidárias oferecem refeições gratuitas
Cozinhas Solidárias oferecem refeições gratuitas Foto: Divulgação/MTST


Mais de um ano após a inauguração do projeto, segundo o próprio MTST, as Cozinhas Solidárias já serviram mais de 975 mil marmitas entre as 31 unidades. Além disso, ainda de acordo com o movimento, apenas em junho de 2022 foram entregues 88660 refeições.


Apesar da fome ser mais presente, percentualmente, no Norte e Nordeste, as Cozinhas Solidárias inicialmente se concentram na maior cidade do país, São Paulo. Contudo, é relevante compreender que é na mesma capital paulista que se concentram mais de 42 mil moradores em situação de rua, segundo levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais. O número é praticamente um quinto da população em situação de rua de todo o país.


Ainda assim, as Cozinhas Solidárias estão “presentes em periferias de: Roraima, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Sergipe, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal”. A distribuição de alimentos é gratuita e é mantida através de contribuições que podem ser feitas diretamente para o projeto.



ONG Banco de Alimentos


A ONG Banco de Alimentos foi fundada por Luciana Chinaglia Quintão no ano de 1978. A economista tinha a proposta de fazer a ponte entre lugares onde sobravam alimentos e onde eles faziam falta. A organização recolhe alimentos sem valor comercial mas que mantêm as condições de consumo, e os transportam para onde é necessário.


No lugar do descarte de alimentos não vendidos, a doação de comida que iria para o lixo alimenta milhares de pessoas através de instituições parceiras do projeto. Entre um dos objetivos, a organização se preocupa com a manutenção de um ciclo sustentável, oferecendo comida de qualidade e no impacto direto na queda do acúmulo de lixo orgânico.


A organização possui entre os seus pilares o comprometimento com a Educação Nutricional — assim como a Colheita Urbana e a Conscientização — e oferece ações educativas de qualidade nutricional. Entre as ações com foco na educação, estão a parceria com o Centro Universitário São Camilo.


Desde o início da pandemia, em meados de fevereiro de 2020, as doações para a instituição cresceram de forma inimaginável. O aumento das ações foi despertado na sociedade civil, que respondeu positivamente ao tempo de incertezas. Durante esse período, a organização recebeu a metade dos alimentos doados em mais de 20 anos.


Vale lembrar que, até junho de 2020, uma série de normas eram aplicadas quanto a doação de alimentos por restaurantes. Com a publicação da Lei 14.016 de 2020, restaurantes e instituições com excedentes alimentares em boas condições para o consumo pudessem doá-los para pessoas vulneráveis de forma menos burocrática.


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