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Puerpério: uma questão de saúde pública e empatia

  • isiqueira5
  • 12 de jul. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 15 de jul. de 2022

Pouco debatido na sociedade, o puerpério é um período de grandes mudanças, físicas e emocionais, que a pessoa enfrenta após ter um bebê

Por Isabella Siqueira e Milena Brito


A maternidade é um momento idealizado por muitas pessoas que pretendem ou sonham em ter filhos. Porém, com a chegado do bebê, a expectativa entra em conflito com a realidade. Uma nova vida chegou ao mundo, e você passa a ter responsabilidades que não tinha antes, ao mesmo tempo, precisa lidar com as mudanças no seu corpo, cobranças, questões emocionais, como: medo, angústia, ansiedade e culpa. Esse período é conhecido como puerpério.


O puerpério é conhecido popularmente como pós-parto, período que começa após o nascimento do bebê. Segundo o obstetra Vínicius Aniceto, médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto: “De maneira geral, o puerpério é o período de vida que vem imediatamente após o parto e engloba todas as transformações corporais, emocionais e comportamentais que se sucedem após a gravidez. Cientificamente, ele é dividido em imediato, tardio e remoto”.


Impactos


De acordo com Aniceto, durante a gravidez, o corpo da gestante sofre diversas transformações por causa da elevação dos hormônios estrógeno e progesterona. A pessoa que acabou de dar a luz cria muitas expectativas em relação ao nascimento, ao bebê e em como serão as coisas daqui para frente.




“A realidade em relação ao nascimento pode ser muito diferente das expectativas que foram criadas; a amamentação é dolorosa nas primeiras vezes, ela tem que lidar com o choro de um recém nascido sem muitas vezes compreender qual é a demanda”, explica o especialista.

O misto de emoções muitas vezes leva as pessoas nessa situação ao chamado Blues Puerperal, que são os sinais depressivos transitórios ou, até mesmo, causa a Depressão Puerperal, que se diferencia por apresentar sintomas persistentes, os quais interferem na funcionalidade da puérpera que possivelmente necessita de acompanhamento psicológico/ psiquiátrico.


“Me lembro que eu chorava bastante sozinha”

A professora Maria do Carmo Silva Gobbo passou por momentos difíceis durante seus puerpérios nas duas vezes que deu à luz. No primeiro, as inseguranças e a chegada da nova realidade afetam a sua estabilidade emocional.


“Os primeiros dias do pós-parto e o puerpério foram bem difíceis porque eu estava esperando ter parto normal e eu tive cesariana. Os pontos [do corte na barriga] doeram muito e o meu emocional também ficou bem abalado porque era tudo novo, era o primeiro filho e eu com muita dor. Me lembro que eu chorava bastante sozinha. Aos poucos foi melhorando, depois que a médica que eu ia percebeu e me receitou um antidepressivo que quem amamenta pode tomar, e eu me recordo que ela aumentou a dose do remédio duas ou três vezes. Depois de alguns meses, eu já estava bem, mas acredito que tomei esse remédio até ele [o bebê] fazer 1 ano”.


No nascimento do segundo filho, Maria teve que lidar com um novo fator durante o parto e o pós-parto: a Covid-19.


“O puerpério e os primeiros dias também foram bem difíceis porque eu estava com Covid e, no hospital, ele [o segundo bebê] ficou três dias na UTI Neonatal em observação. Então, foi assim: tiraram ele da minha barriga, eu só o vi por um segundo, e já o levaram para essa UTI. Depois, quando viemos para a casa, ficamos um pouco apreensivos, pois nós estávamos com Covid-19 e tivemos que ter muitos cuidados extras. Após o isolamento, as coisas ficaram mais tranquilas, mesmo passando pela cesariana novamente, mas meu corpo não voltou ao que era antes, eu percebi que o meu corpo mudou, mas isso não me afetou”.



Falta de apoio conjugal e/ou familiar


Quando o filho chega, a vida contínua. Além dos cuidados com o recém-nascido, a puérpera ainda tem que lidar com as cobranças da vida a dois com o parceiro(a), as preocupações relacionadas ao trabalho/carreira profissional se somam com os sentimentos conflitantes que surgem entre querer retomar essa esfera da vida e se dedicar à maternidade.


Agora, a pessoa precisa se dedicar ao recém-nascido, o que pode leva-la à ausência em momentos com seu cônjuge, familiares e amigos, que muitas vezes, acabam não compreendendo a situação, e culpando a mãe e reforçando o isolamento causado pelo resguardo.


O núcleo familiar pode, e deve, apoiar e acolher a pessoa que acabou de parir realizando ações como: cuidados com a casa e tarefas domésticas, idas ao mercado e farmácia, preparando as refeições sempre que der, se colocando à disposição da mãe e, de repente, até cuidando do bebê para que ela ou ele possa tomar um banho e descansar um pouco.


Para além do parto


É importante reforçar que não só mulheres dão a luz, homens trans e pessoas não binárias também vivem essa realidade e passam por todos os problemas associados ao puerpério, só que com situações particulares agravantes, como fatores biológicos e o preconceito.


“Nos casos de homens trans que gestaram, ainda tem a preocupação em retomar o tratamento hormonal virilizante. Enfim, o puerpério é um período da vida de intensas transformações e diversas emoções, que faz dele um momento tão peculiar”, ressaltar o médico.



Visibilidade nas redes


Nos últimos anos, as redes sociais tem sido um espaço muito utilizado para a discussão e visibilidade acerca do puerpério. Existem dois lados da mesma história: pessoas que fazem postagens como se esse fosse um período perfeito, e profissionais e até mesmo outras pessoas que mostram a realidade e os desafios do pós-parto.


É o caso da influenciadora Sam Doula, que com mais de 60 mil seguidores no Instagram, aborda inúmeros assuntos relacionados a gravidez, inclusive o tema desta reportagem. No perfil de Sam, todos aqueles que se identificam podem encontrar dicas, explicações e apoio nessa fase que pode ser tão difícil.


De tantas discussões no ambiente virtual, o tema se tornou mais popular e agora, mais pessoas compartilham em seus perfis as experiências que passam no dia a dia do puerpério. No Twitter, existem várias páginas dedicadas ao tema, como: “Bia - no caos do puerpério” e “Não me estresse estou no puerpério”.









Saúde pública


O puerpério é questão de saúde pública, pois envolve a vida do bebê e da pessoa que deu a luz. Por isso, o Estado através do Sistema Único de Saúde (SUS), oferece serviços assistenciais durante e depois da gravidez, todos gratuitos.


Especificamente sobre o tema, a Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Conselho de Desenvolvimento Nacional Científico e Tecnológico (CNPQ), desenvolveram uma cartilha denominada “Tempo de amor e adaptação - promoção da saúde da mulher no pós-parto e do recém-nascido”.


Disponível em PDF, o documento traz informações sobre o puerpério em si, debate questões acerca da sexualidade, dá dicas sobre amamentação, cuidados com o recém-nascido e alerta em relação a informações de Internet.


Por todos esses motivos, é importante que não só as pessoas que acabaram de parir passem por esse período sozinhas. O puerpério também é um assunto familiar, social e de saúde pública que merece mais visibilidade.

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