Puerpério e pandemia: desafios maternos entram em discussão
- giulliacolombo
- 26 de jun. de 2022
- 5 min de leitura
Mais de 30 anos depois da primeira documentação científica a saúde mental de puérperas pode se tornar política pública
Por Giullia Colombo e Luciana Saravia
Em 7 de junho, o Senado aprovou um projeto de lei que garante assistência à saúde mental de gestantes e mulheres na fase do puerpério. O objetivo da emenda é rastrear sintomas depressivos por meio de avaliação psicológica e oferecer acompanhamento médico às pacientes.
O autor do projeto de lei é o deputado Célio Silveira (MDB/GO). A norma foi aprovada com parecer favorável pelas comissões de Direitos Humanos e de Assuntos Sociais e voltou para a Câmara dos Deputados para que as alterações sejam validadas.
A saúde mental em mulheres puérperas foi institucionalizada em 1990, quando houve a primeira definição de depressão pós-parto na literatura médica. De lá para cá, 32 anos se passaram até que o Brasil tornasse o assunto uma questão de saúde pública.
O puerpério compreende o período pós-parto, da saída da placenta até a primeira ovulação e consequente menstruação. Sua duração é variável, mas tem duração média de 45 a 60 dias após o parto.
Nele, a mulher que deu à luz vai passar por um processo fisiológico de readaptação. Mudanças físicas, emocionais, hormonais e mentais serão as protagonistas do corpo feminino que gestou durante nove meses.

Porém, com a chegada do recém-nascido estabelece-se uma nova rotina. Um dia a dia permeado de privação de sono e reconhecimento de novos papéis da mulher enquanto mãe. Ao lado das dores, do inchaço e da fadiga, algumas mulheres apresentam uma tristeza nesse período, conhecido como baby blues.
Ele é diferente da depressão pós-parto, porém as duas condições compartilham sintomas muito parecidos - quadro melancólico com choro frequente, ansiedade e irritabilidade. A diferença é que o primeiro deve ser transitório, enquanto o outro ultrapassa o período de puerpério remoto (a partir do 45º dia). Um pode levar ao outro.
Gravidez na pandemia
Um estudo realizado pelo Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) com 184 puérperas de hospitais públicos de São Paulo mostrou que 38,8% das mulheres tiveram depressão pós-parto durante a pandemia.
Esse número é quase o dobro da média nacional anterior à pandemia (20%), segundo a literatura médica da pesquisa. O estudo revelou ainda que ansiedade, solidão e o medo da pandemia são sintomas que apareceram com frequência nos questionários aplicados.
A circulação de um novo vírus, até então desconhecido pela ciência, despertou muitas dúvidas sobre tratamento, grupo de risco, modo de transmissão em toda a população. Para as gestantes e puérperas, o medo era multiplicado pela delicadeza em gerar uma nova vida.
Quais as complicações que uma mulher grávida pode enfrentar se pegar Covid-19? Mulher com Covid-19 pode amamentar? Gestantes e puérperas estão no grupo de risco? É possível transmitir da mãe para o feto durante a gestação? Essas e muitas outras dúvidas acompanharam os anos de medo e precaução que as mães do mundo todo enfrentaram.
O estudo da FMUSP revelou ainda que o consumo de notícias sobre o coronavírus está diretamente relacionado ao aparecimento de sintomas de depressão pós-parto. As puérperas que apresentaram quadros mais graves da doença também são as que mais consumiram informação pelo WhatsApp.
As consultas à Web confirmam os resultados do questionário. Segundo o Google Trends, as buscas pelo assunto dispararam a partir de março de 2020 e se mantêm em patamares altos até hoje.
O puerpério não é uma doença e por isso dispensa tratamento com medicamentos. Contudo, a fase pode ser amenizada quando a mãe recebe acompanhamento médico adequado, cuida do seu bem-estar físico e mental, possui informação e pode contar com uma rede de apoio que a auxilie na nova rotina de cuidados intensivos ao recém-nascido e com as mudanças naturais.
Porém, as novas mães da pandemia não puderam contar nem com parentes, amigos ou escolas e creches para auxiliá-las. O isolamento social era uma das medidas mais recomendadas para conter a disseminação do vírus, junto com a higienização constante das mãos e o uso de máscaras.
Receber visitas? Nem pensar. Sair para caminhar e desfrutar dos benefícios do exercício físico na fase do puerpério? De jeito nenhum.
Durante os últimos dois anos, escolas, empresas e transportes coletivos enfrentaram instabilidades na atuação presencial. Como fica a vida das mulheres que, mesmo com licença maternidade, tiveram que voltar a trabalhar presencialmente com os filhos em casa? E aquelas que nunca puderam parar de trabalhar e se expuseram ao vírus?
Maria Julia Mistretta, estudante de 22 anos e mãe de Joaquim, nascido em maio de 2022, reconhece que a informação foi de grande importância para ter um período puérpero mais ameno. Ao estudar sobre os sintomas e o que se passa no corpo da mãe, Maria Julia se sentiu mais confiante entendendo que todas as mulheres enfrentam os mesmos desafios que ela.
A mãe de primeira viagem também atribuiu à internet responsabilidade sobre a construção do que é a maternidade. Muitas figuras públicas que possuem uma voz influente sobre as seguidoras apresentam o pós-parto como uma felicidade inigualável e uma época fácil, radiante e plena, muito distópica do que mães de fato enfrentam.
“A gente vê blogueiras lindas, maravilhosas, magras e sem olheiras nos primeiros dias (depois de dar a luz), e não é bem assim. Eu busco seguir nas redes sociais mães reais, que mostram o puerpério como ele é, com as dores e todos os desafios.”, afirmou em entrevista com a reportagem.
Mudança de ares
No último dia 8 de maio, data que além de celebrar o dia internacional da mulher coincidiu com o dia das mães, a apresentadora Titi Müller fez uma postagem em suas redes sociais refletindo sobre a sua experiência com a maternidade durante a pandemia. Mãe de Benjamin, nascido em 2020, Titi definiu o puerpério como “solitário” contando apenas a companhia do primeiro filho, o amor e a dor desse período.

Titi Müller no dia do nascimento de Benjamin. “Maternar é o ato mais político de todos." - Foto/Reprodução Instagram
Como algo “poderoso, brutal e visceral”, a entrega de uma mãe ao seu filho foi algo que moveu as percepções da apresentadora logo nos primeiros meses da quarentena, que afirmou ter a tornado muito mais empática e grata pela vasta rede de apoio que criou virtualmente com mulheres e mães que passaram pelos desafios do puerpério na pandemia.
No instagram, a hashtag #maternidadereal já conta com 9,5 milhões de postagens, procurando desmistificar a irrealidade de uma maternidade perfeita, e ao mesmo tempo, difundir informações para mães e gestantes.
A construção de ideais da chegada do recém-nascido é um fardo invisível que Müller comentar na postagem, "’Um dia de cada vez’ ‘vai passar’ ‘cada gota importa’ são frases verdadeiras, que me motivaram, mas também de certa forma aprisionaram em um ideal materno que é o oposto de qualquer referência que eu tive na vida antes da chegada do Benjamin“.
Outra voz pública que surpreendeu ao colocar os desafios maternos no holofote foi a empresária Kylie Jenner. Mãe de Stormi (3) e do caçula cujo nome ainda não foi divulgado, relatou que a segunda gestação foi muito mais complicada do que a primeira. Para seus mais de 325 milhões de seguidores, contou que “Não é facil mentalmente, fisicamente, espiritualmente, tem sido uma loucura”.
Jenner comenta que após o parto ela não queria voltar à internet sem comentar sobre a situação que tem vivido, não quer mostrar algo irreal de uma maternidade fácil, que pode ser uma pressão para as demais mães e encerra a sua publicação notando que “está tudo bem não estar bem”.
Em um estudo realizado no Instituto Statens Serum, na Dinamarca, foi constatado que a depressão pós-parto tem 27 a 46 vezes mais chances de ocorrer em uma segunda gravidez. E pela primeira vez, um outro estudo constatou a relação direta entre as redes sociais e a insatisfação corporal de mulheres no pós parto, realizado pela universidade de Leipzig, na Alemanha.
A maternidade é um desafio biológico para mulheres desde os primórdios da humanidade, no entanto, a documentação do puerpério nas redes sociais impulsionou a discussão na esfera pública. Mães têm tomado as rédeas de suas histórias e as colocando em pauta.
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