Multiculturalismo na seleção francesa dos últimos 20 anos não indica superação do passado colonial
- Caio Gaspareto Chiozzi
- 19 de ago. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 21 de ago. de 2022
Les Bleus apresenta diversidade étnica nos elencos das Copas do Mundo de 1998 a 2018, mas o racismo e a xenofobia ainda estão presentes na sociedade
Por Caio Chiozzi, Giullia Colombo e Luciana Saravia
No último dia 12 de julho, a vitória da seleção de futebol da França contra o Brasil, na final da copa do mundo, comemorou 24 anos. Com um placar de três a zero, o time de Zidane Zinedine ergueu a taça em casa e marcou a memória dos fanáticos por futebol e das gerações que viriam. No entanto, o cenário social e político da França não vestia o black, branc e beaur (preto, branco e árabe) slogan que a seleção de 98 vendia mundo afora. Pelo contrário, a França apresentava um profundo cenário de racismo e xenofobia.
A pedido da Comissão de Direitos do Homem e do Serviço de Informações do Governo francês, o instituto de opinião CSA realizou um levantamento que resultou na marca de que 58% dos franceses eram atraídos por teses racistas, sendo 18% racistas intitulados e 40% simpatizantes com teses eugênicas. O achado coincidiu com outra pesquisa.
O instituto Eurobarometrè classificou a França como o segundo país mais racista da União Europeia, ficando atrás apenas da Bélgica. A nação foi responsável pela colonização do Congo, cuja exploração provocou a morte de cerca de 10 milhões de congoleses no reinado de Leopoldo II, durante os séculos XIX e XX.
Black, Branc, Beaur?
A França saía de um hiato de 12 anos sem participar de uma Copa do Mundo no ano de 1998. Desde a última participação, em 1986, os fluxos migratórios que passaram pelo país mudaram a cara da seleção que disputou o mundial de 98.
A libertação de antigas colônias entre as décadas de 1970 e 1980 contribuiu para a multiculturalidade da equipe a ponto dessa presença se tornar o slogan da seleção: Black, Branc e Beaur. Dos 22 jogadores convocados, 12 nasceram fora do país.
A campanha do time campeão popularizou o rosto dos jogadores como parte da identidade francesa e eternizou-os como ídolos nacionais. Mas, a discussão racial ainda apresentava sequelas de um processo racista, xenofóbico e eurocêntrico histórico no futebol. Os ataques às identidades de jogadores como Zinedine Zidane em 1996 foram um exemplo disso na época.
O cenário continua similar atualmente. Em 2011, Karim Benzema sofreu ataques dos Le Penn, líderes da extrema direita e o futebol francês foi marcado pelo escândalo de cotas, que limitaria a presença de negros e árabes nas bases da Federação Francesa de Futebol (FFF).
Evolução da multiculturalidade da seleção francesa nas últimas seis Copas do Mundo. Fontes: Daniel Garci- AAFP via Getty Images; Reuters; Alex Livesey/Getty Images; Pinterest; DW; FIFA/Divulgação e BBC
Dos 15 países que já foram colônia francesa no continente africano, observamos que, nas seleções francesas dos últimos 20 anos, diversos jogadores têm origem ou dupla nacionalidade em 14 delas. O multiculturalismo é uma face da composição étnica da França, mesmo não sendo bem recebida pelos franceses.

Arte: Giullia Colombo
Para compreender o racismo, a xenofobia e o eurocentrismo que a sociedade francesa historicamente incorporou e que a seleção dos últimos 20 anos refletiu, é preciso retomar a colonização da África pela França e os processos migratórios que decorreram desde então.
Colonização à francesa
O colonialismo francês tem origem nas primeiras décadas do século XX. Porém, foi a partir da Conferência de Berlim (1894-1895), momento em que o continente africano foi dividido entre nações da Europa, que a França ficou com grande parte da África Ocidental e outras da África Oriental. Entre elas, os franceses dominaram os territórios em que hoje se encontram a Argélia, Tunísia, Senegal, Mali, Burkina Faso, Níger, Costa do Marfim, Congo, Gabão, Benin, Chade, Camarões, Ubangui-Chari, Comores e Madagascar ou parte deles.
A partir da segunda metade da década de 1950, as colônias francesas na África começaram a se mobilizar internamente para organizar uma luta pela independência. A mais famosa delas ficou conhecida como a Revolução Argelina (1952-1960), que libertou a Argélia do domínio francês e influenciou outras nações a fazerem o mesmo.
Historicamente, as migrações são motivadas por, entre outros fatores, a busca por melhores oportunidades. No caso das ex-colônias francesas não foi diferente. Depois da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo dos países europeus começou a promover o que ficaria conhecido como Estado de Bem-Estar-Social. Assim, ex-colonos migraram para o território francês com o objetivo de se tornarem cidadãos e poderem acessar serviços de qualidade.
Futebol e transformação social
Racismo e xenofobia se estabeleceram como barreiras para a cidadania plena e são refletidos no futebol, devido à influência sociocultural do esporte na sociedade. Nesse sentido, o futebol funciona como uma válvula de escape dessas estruturas, uma vez que, para ser bem-sucedido na modalidade, a princípio, é apenas necessário “saber jogar futebol”, o que abre mais oportunidades para essa parcela da população em comparação com outras profissões, como médico e advogado.
Tendo em vista o fluxo de migração das ex-colônias francesas (principalmente da África), muitos jovens negros utilizaram o esporte como maneira de melhorar a condição de vida da sua família, fazendo com que o futebol francês produzisse muitos jogadores de alto nível para o mundo.
A consequência disso foi um aumento gradativo no número de jogadores de origem africana que serviram as seleções francesas nas últimas seis edições de Copa do Mundo, como mostra o gráfico abaixo:

Arte: Caio Chiozzi
O fato de 61% dos jogadores campeões do mundo com a França em 2018 terem origem africana deveria representar um avanço nas lutas contra o racismo e a xenofobia, promovendo a tolerância e a igualdade. Os Bleus chegaram a ser um símbolo da “união entre os povos” durante a campanha na Rússia, mas dados recentes de pesquisas sobre racismo e xenofobia sugerem que a aceitação não foi tão significativa quanto o esperado e divulgado.
Em 2019, um relatório com informações do Serviço Estatístico de Segurança Interna Ministerial (SSMSI) revelou um aumento de 11% nos crimes de motivação racista entre 2018 e 2019. Os dados ainda mostraram que 6% da população francesa acredita que algumas raças são superiores a outras.
O relatório foi desenvolvido a partir de entrevistas com a população francesa e, mesmo 60% dela dizendo que não é racista (proporção duas vezes maior que em 1998), também verificou-se um aumento de 130% no número de atos racistas no ano seguinte à conquista da Copa.
Já em 2022, um relatório elaborado anualmente pela Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos revela que a aceitação da população francesa com relação às minorias (negros, imigrantes, ciganos, judeus e muçulmanos) aumentou, mas não significativamente. No índice usado como parâmetro, a população francesa atingiu 68 de 100 pontos possíveis (dois pontos a mais em comparação a 2019).
Uma das hipóteses relacionadas ao futebol, para justificar a presença do racismo e da xenofobia contra esses grupos sociais, é a de que a população nativa francesa parece “não aceitar” que jogadores de origem africana representem o país no torneio mais importante do Mundo e tragam o título para Paris.

Recepção dos campeões do mundo nas ruas de Paris. Fonte: Bertrand Guay/AFP
Passada a euforia da conquista e a recepção aos Bleus, as taxas de crimes raciais e atos racistas aumentaram no território francês, como evidenciado no relatório, reproduzindo estruturas segregacionistas que foram enraizadas na sociedade ao longo da formação da nação.
Essa dinâmica histórica e ainda presente na França do século XXI pode ser sintetizada na fala do imigrante argelino Yassine (durante conversa com um amigo) registrada no livro Soccer Empire: The World Cup and the Future of France (2010), de Laurent Dubois:
“É engraçado, os filhos dos estrangeiros, quando eles fazem a França vencer, as pessoas dizem que eles são franceses. Quando eles vão para a prisão, as pessoas dizem que eles são de origem estrangeira”.
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