De improvisada a respeitada: os 30 anos da Dinamarca campeã europeia
- Guilherme Oblasser Paladino
- 4 de ago. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 18 de ago. de 2022
Esquadrão eliminou gigantes em histórica campanha e, desde então, coleciona triunfos, fracassos e motivos para ter esperança

Foto: Reprodução
Por Guilherme Paladino e João Pedro Bernardo
2022 é ano de Copa do Mundo, o torneio esportivo mais esperado pelo planeta a cada quatro anos. Realizada este ano no Catar, a Copa terá 32 seleções concentradas no pequeno país da Península Arábica, e 13 destas vagas estão preenchidas por seleções da Europa.
Os europeus, que até hoje já venceram 12 das 21 edições do Mundial, também jogam de quatro em quatro anos a Eurocopa (chamada pela imprensa brasileira de “A Copa do Mundo sem o Brasil e a Argentina”), que serve tanto para as mais fortes se prepararem para a Copa quanto para as mais fracas jogarem um torneio da elite continental.
Acontece que, de vez em quando, algumas seleções consideradas mais fracas conseguem a façanha de ir longe demais na competição, como os campeões inéditos Portugal (2016), Grécia (2004), e a seleção que inaugura a era das ‘zebras’ na Euro: a Dinamarca de 1992, que neste ano comemorou o trigésimo aniversário do maior título de sua história.
Salvos pela guerra
Após ter encantado o planeta da bola na Copa do Mundo de 1986, a seleção da Dinamarca passou por um inesperado momento de crise nos anos seguintes, perdendo todas as partidas na Eurocopa de 1988 e nem sequer se classificando para o Mundial de 1990. A má fase era tamanha que nem o técnico Sepp Piontek, que estava no cargo desde 1979, resistiu, acabando demitido.
A instabilidade, então, se agravou: a Associação Dinamarquesa de Futebol não conseguiu contratar um substituto e quem assumiu a posição foi o interino Richard Nielsen, com um estilo de jogo mais defensivo.
A decisão não convenceu a imprensa, não animou a torcida e muito menos agradou ao elenco. Assim, logo após a derrota para a Iugoslávia nas eliminatórias para a Euro de 1992 (que acabaria selando a não-classificação da Dinamarca à competição), os mais de 40 mil dinamarqueses na arquibancada do estádio Idraetsparken gritavam o nome do ex-técnico Piontek, em provocação a Nielsen.
Naquele mesmo dia, o super astro do meio-campo Michael Laudrup anunciou sua aposentadoria da seleção, com críticas diretas ao momento vivido pela equipe:
“Somos uma piada.”
Seu irmão mais novo, Brian, promissor atacante de apenas 21 anos, decidiu seguir pelo mesmo caminho, inclusive com críticas diretas ao treino: “Eu respeito Richard Moller Nielsen como pessoa, mas não como técnico. Desta forma, acho melhor parar agora. Eu não posso atuar sob seu comando e ele não gosta de mim como jogador. Não penso que minha carreira na seleção se encerra agora, mas não devo voltar enquanto ele permanecer.”

Como a Iugoslávia terminou as eliminatórias um ponto à frente da Dinamarca, o time do país socialista conquistou a vaga para a competição europeia, deixando a equipe de Richard Nielsen de fora. Contudo, com o agravamento da Guerra Civil na Iugoslávia em 1992, a seleção do país perdeu o direito de participar da Euro e, pela regra do ‘Lucky Loser’, a vaga ficou com a Dinamarca - apenas 13 dias antes de a bola rolar.
Vale lembrar que, também em 1992, Brian Laudrup fez as pazes com Nielsen e voltou a atuar pela seleção. Desta forma, pelo menos este importante reforço tinha o potencial de ajudar a tirar a Dinamarca da situação de desespero. Entretanto, seu irmão mais velho, Michael, que conquistou a Champions League pelo Barcelona no Dream Team do técnico Johan Cruyff naquele ano, permaneceu irredutível e não disputou a Eurocopa.
A zebra destruidora de gigantes
A Eurocopa de 1992 foi a última a ter um formato com apenas oito equipes. Estas eram separadas em dois grupos, com duas seleções avançando em cada, formando, assim, as semifinais.
O grupo da Dinamarca não tinha moleza: estavam nele a Suécia, que sediava o torneio, e as badaladas Inglaterra e França, dos lendários jogadores Gary Lineker e Éric Cantona, respectivamente.
A estreia dinamarquesa ocorreu no dia 11 de junho, contra os ingleses, para um público de 26.385 pessoas no Estádio de Malmo. A partida terminou em empate sem gols. No duelo seguinte, a Dinamarca foi derrotada pelos donos da casa pelo placar mínimo. Assim, ficava em uma situação complicada na competição, precisando ganhar da França no último embate da fase de grupos.

E foi o que ocorreu: em uma partida dura, com o gol da vitória saindo após os 30 minutos da segunda etapa, a ‘Dinamáquina’ bateu os franceses por 2 a 1 e se classificou em segundo lugar, com três pontos, atrás da Suécia, com cinco. Os rivais Inglaterra e França ficaram com dois pontos cada.
De ‘seleção vivendo um puro caos’ a ‘classificada em cima de duas das equipes mais tradicionais do esporte’, a Dinamarca chegou aos mata-matas para enfrentar pedradas ainda maiores. Na semifinal, a equipe enfrentou a seleção dos Países Baixos, atual campeã europeia e que estava vivendo grande fase em campo, tendo se classificado em primeiro lugar no outro chaveamento.
Como esperado, o embate foi duro, terminando em empate por 2 a 2, com dois gols de Larsen para o lado dinamarquês. Nos pênaltis, a equipe de Nielsen foi perfeita e converteu as cinco cobranças. Foi aí que o goleiro Peter Schmeichel (pai de Kasper Schmeichel, hoje também goleiro da Dinamarca) entrou em cena e fez história, defendendo a cobrança do craque Marco van Basten e carimbando a passagem dinamarquesa à final europeia.

Se na semifinal o desafio era contra os campeões europeus, na final quem aguardava eram os campeões mundiais. Como era de se esperar, a Alemanha, dos históricos Matthias Sammer, Karl-Heinz Riedle e Jürgen Klinsmann, era a ampla favorita do confronto contra a equipe que nem sequer havia se classificado em campo para o torneio.
Mas, para um público de 37.800 pessoas no estádio Ullevi, em Gutemburgo, a história foi feita pelos dinamarqueses, que venceram o confronto por 2 a 0 (contando também com atuação colossal de Peter Schmeichel) e conquistaram sua primeira - e única - taça continental, o maior feito da história da seleção até hoje.

Tempos atuais
A Dinamarca quase repetiu seu próprio feito de 30 anos atrás. Na Euro 2020 (realizada em 2021, por conta da Covid-19), os dinamarqueses logo na estreia contra a Finlândia perderam seu principal jogador, o meio-campista Christian Eriksen, devido a uma parada cardíaca.
Horas depois do susto e da comoção mundial, Eriksen apareceu nas redes sociais para anunciar que estava bem e que não retornaria para o restante da competição. Mesmo sem o craque e perdendo os dois primeiros jogos (1 a 0 contra a Finlândia e 2 a 1 contra a Bélgica), a Dinamarca avançou como segunda colocada do grupo (assim como em 1992) após golear a Rússia por 4 a 1.
Nas oitavas de final, outra goleada: 4 a 0 contra o País de Gales. Nas quartas de final, vitória sobre a Tchéquia por 2 a 1, o mesmo placar das semifinais (porém a favor da Inglaterra, que avançou à final e eliminou a, mais uma vez, histórica Dinamarca).

Com um passado repleto de altos e baixos, os dinamarqueses estarão na Copa do Mundo de 2022 para escrever mais um capítulo de sua história e novamente dar razões para o apelido ‘Dinamáquina’ existir.
Copa do Mundo FIFA de 2022 – Grupo D
. Dinamarca x Tunísia, 22 de novembro às 10:00;
. Dinamarca x França, 26 de novembro às 13:00;
. Dinamarca x Austrália, 30 de novembro às 12:00;
Fase final a definir. Os jogos citados estão com o Horário de Brasília (GMT-3).
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