Moda: a construção de identidade e o mundo contemporâneo
- Lorrana Maria Marino Caruso
- 4 de ago. de 2022
- 8 min de leitura
Atualizado: 18 de ago. de 2022
Da alta costura ao fast fashion, a moda reflete e desenha a sociedade, cultura e indivíduos, mas não sem trazer consequências para o meio ambiente
Emanuele Almeida e Lorrana Marino
O verão apontava na Europa e a Semana de Alta Costura em Paris começava! Do dia 04 a 08 do mês de julho, os amantes de moda e luxo assistiram às grifes mais famosas e aprovaram – ou não – as peças mais extravagantes que desfilaram pelas passarelas.
Tudo começa com Schiaparelli apresentando sua coleção para outono/inverno 2022. Com uma pegada surrealista e carregada dos anos 1980, os modelos homenageiam a fundadora da maison, Elsa Schiaparelli.
Depois, pousamos os olhos em Iris Van Herpen que trouxe o toque futurista para os ares de Paris – como de costume. A designer holandesa se inspirou no pós-humanismo e no metaverso. Assim, ela mostra como a tecnologia pode moldar a moda – literalmente, já que a grife aposta nas impressões 3D desde 2009.

Desse modo, podemos voltar ao clássico. A grife Chanel leva para a passarela a sobriedade, esbanjando uma cartela de cores que passa pelo branco, preto, rosa e verde. Nesse estilo, segundo a diretora criativa Virginie Viard, a grife reflete a necessidade e o desejo dos clientes – peças bonitas e funcionais, mas nunca fantasiosas.
Desfilam pelo crivo da FHCM
Outras marcas como Jean Paul Gaultier, Balenciaga e Maison Margiela também desfilaram. Porém, essas, assim como as anteriores, apenas conseguiram seu lugar na Semana porque foram aprovadas nos critérios da Fédération de la Haute Couture et de la Mode (FHCM) – órgão que dirige a moda na França e controla a programação de seis semanas de moda ao ano.
A FHCM dita que, para estar na Semana de Alta Costura de Paris é preciso um ateliê fixo em Paris que empregue, no mínimo, 15 trabalhadores full time e 20 trabalhadores técnicos (costureiras, sapateiros, entre outros) e as marcas têm que apresentar duas coleções por ano com pelo menos 50 looks originais para dia e noite.
Esse mercado, como qualquer outra relação de produção e compra no mundo, é gerida por poder.
Exclusivité
Quando falamos de alta costura, na maioria das vezes, estamos nos referindo a modelos feitos à mão e com materiais de qualidade mais elaborada. Algumas peças podem carregar mais de mil horas de trabalho – um look completo da Chanel pode levar até 1.500 horas para ser feito.
Tudo isso para um modelo de costura que não conta com milhares de compradores. Então, por que a alta costura é feita?
Para demonstrar técnica e expertise, simplesmente. As grifes utilizam desse momento para mostrar as suas habilidades criativas, com exclusividade e tecnicismo. O teto de gastos para que isso aconteça é volátil – tudo pensado em uma estratégia de divulgação e criação de tendências.
Então, se a exclusividade é o holy grail da moda de alta costura, o preço não chega a afligir os cerca de quatro mil consumidores do estilo. As peças mais “simples” podem ter valor inicial cotado entre US$10 mil, porém quando chegamos aos modelos noturnos – em que as pedras preciosas tendem a aparecer – os preços batem o teto dos milhões.
Dessa forma, a alta costura funciona como um carro bonito e caro na rua: para o mero apreço daqueles que gostam e não podem comprar, e para a exclusividade daqueles que têm cacife para possuí-la.
A moda fala!
Essa relação social que a alta costura demonstra não é exclusiva do século XXI. No Brasil, nota-se desde o século XIX, principalmente com a influência da belle époque, a aristocracia ditando regras sociais de conduta no que diz respeito ao que se veste e adequando-se ao que a França produzia – e não, o clima não impedia que os homens usassem sobretudos na praia de Ipanema e que as mulheres se cobrissem com espartilhos e vestidos pesados.
Revistas, folhetos e cartilhas circulavam pelas camadas sociais do país e dividiam a roupa em duas categorias: aquelas para se usar em casa, e aquelas em que só se vestia em um contexto de bailes ou eventos externos. Assim, fica claro como a moda é social.
E o século seguinte apenas reforça essa afirmação, uma vez que as suas grandes transformações trouxeram novos aspectos para o que a vestimenta significa na vida cotidiana. A Segunda Guerra Mundial e seu consequente impacto econômico foram um marco no que diz respeito à produção de roupas e, aqui, torna-se impossível desvincular o papel da mulher na sociedade, do mercado da moda.
Com o ingresso desse gênero no sustento da economia, os estilos mudaram no pós-guerra e os modelos passaram a ter um teor utilitarista e barato, afinal era preciso atender à demanda dessas novas trabalhadoras – e assim, mais uma vez, a moda reflete o que se vive.
Essa realocação no mercado, colocou a moda num patamar mais acessível para os segmentos sociais, estendendo o setor para uma parcela da sociedade a qual as vestimentas representavam.

O Brasil na passarela do mercado fashion
Mas foi em 17 de julho de 1944 que o Brasil assistiu ao seu primeiro desfile de moda. A Casa Canadá - boutique de luxo do Rio de Janeiro, pioneira na alta costura brasileira - foi o espaço escolhido por Dona Mena, estilista de alta costura, para receber as peças que iriam vestir as mulheres do país.
A inspiração parisiense continua forte, mas, mesmo que tímidos, os modelos nacionais garantem seu espaço com as consumidoras. A partir dos anos 60, o país enxerga tramas e cores novas, o futurismo e a modernidade chegaram às terras tupiniquins e, a partir daqui, a ascensão começa.
A contracultura e o movimento tropicalista influenciam a criatividade de nomes como Zuzu Angel, Dener e Clodovil. Segundo Tetê Laudares, pesquisadora de moda, eles foram referência em elegância, sendo os principais representantes de uma alta costura que, mais tarde, encontrou seu holofote verde e amarelo no que se tornou o 5° maior evento de moda do mundo: a São Paulo Fashion Week.
Com pioneiros de peso como Walter Rodrigues, Lino Villaventura e Herchcovitch, a semana de moda paulistana foi determinante para o crescimento industrial do Brasil. A demanda gerou a profissionalização de diversos segmentos que amparam a produção de desfiles, como estilistas, cabeleireiros e jornalistas. Assim, o Brasil adentra ao grande e complexo mercado fashion.
Moda, s'il vous plaît?
E, se ao olhar para a semana de moda parisiense desperta curiosidade sobre o consumidor da alta costura, observar a São Paulo Fashion Week também, independente do preço. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é categórico ao demonstrar que, apesar de poder ser vista por todos, a moda só é consumida por aqueles que perambulam pelas camadas sociais mais elevadas.
Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo digno deveria ser quase 5 vezes maior que o atual. Assim, a população só comprará um sapato, uma bolsa ou uma blusa se, antes, garantir moradia, alimentação e transporte.
Mas, por que em 2013 os dados foram favoráveis para o crescimento do mercado da moda no Brasil, por exemplo?
Com mais de 11 milhões de novos trabalhadores e uma faixa de renda crescente, as pessoas da época subiram na escala social e, consequentemente, o setor da moda foi beneficiado. Afinal, todo mundo com um dinheiro sobrando quer comprar um look novo. Com o regresso ou o avanço da economia, a mesma lógica se repete.

Consumo, logo existo…
… e construo minha identidade. Tendo em vista que a moda é uma expressão social que reflete o contexto de uma época e comunica não verbalmente, ideias, crenças e valores. Encontra-se aqui o poder de construção identitária que as peças de vestimenta carregam.
E, assim como a conquista feminina por mais espaços sociais influenciou a produção da moda, o sistema econômico vigente também o faz, porém num sentido oposto, em que o meio impacta no consumo do indivíduo.
Eleva-se um modelo de produção conhecido como fast fashion, onde a agilidade do modelo capitalista e as tecnologias de informação e consumo aceleram as tendências e geram uma produção em massa de artigos de moda - bolsas, sapatos, roupas e acessórios - que possuem um tempo utilitário menor, não porque perderam qualidade, mas sim porque não fazem mais sentido para a identidade do indivíduo pós-moderno.
Assim, diferentemente de uma peça Chanel que demora 1.500 horas para ser feita, temos roupas que são produzidas em minutos, em grande escala e que duram meses, quem sabe semanas ou até mesmo dias.
Indústria 4.0 também pode ser fashion?
É preciso encarar que vivemos em uma sociedade altamente consumista. Isso é fato consumado. O fast fashion veio e se estabeleceu dentro da indústria da moda e, querendo ou não, é um dos setores que mais gera renda para as empresas.
Porém, outro aspecto que precisa ser visto de frente é o movimento sustentável que o mercado da moda tem gerado e tentado estabelecer na sociedade: a indústria 4.0.
Esse conceito se baseia no que podemos chamar de quarta revolução industrial – a qual o mercado está passando –, focado na integração tecnológica dentro dos meios de produção. Para isso, diversas ferramentas e softwares foram desenvolvidos, como a Inteligência Artificial (IA) e o Big Data.
Tendo isso em mente, é possível compreender que a moda, como qualquer outro meio de produção, também precisa adentrar a essas novas configurações.
Moda sustentável? Uh lala!
A indústria têxtil é responsável pela emissão de 8% da emissão de gás carbônico na atmosfera. Apenas a utilização do poliéster na produção é responsável por jogar aos céus 32 das 57 milhões de toneladas globais e, essas peças produzidas, possuem uma vida útil pequena.
Além disso, só no Brasil, a cada 100 toneladas de lixo têxtil produzidas, apenas 20 são recicladas.
O fast fashion proporciona rapidez na produção, assim como na poluição do meio ambiente.
Ao levar em consideração os malefícios gerados pela grande indústria da moda, os ideais sustentáveis da Indústria 4.0 imergem na grande produção têxtil. No Brasil, podemos citar Akihito Hira, estilista formado em Ciência da Computação, com especialização em Artes Visuais – um dos pioneiros da Alfaiataria 4.0.
A alfaiataria, assim como a alta costura, tem um estilo de produção exclusivo e de alto valor agregado. Foi pensando nisso que Hira decidiu estudar e quebrar a forma convencional de produção; ao trazer automatização, novas técnicas e personalização, ele tem o objetivo de levar esse setor do mercado cada vez mais perto dos ideais da Indústria 4.0.
Em suas redes sociais, o artista também trata da questão sustentável por trás da Alfaiataria 4.0. Em entrevista à Fashion Revolution Portugal ele salienta a emergência de mudança dentro do sistema atual de produção:
"A sustentabilidade é outro fator crítico no modelo tradicional de desenvolvimento de produtos de moda, já que estamos falando de uma das principais indústrias poluidoras do meio ambiente. Diante do atual cenário que estamos vivendo e o rápido avanço da tecnologia são necessárias adaptações na forma de desenvolver produtos e até mesmo modificar modelos de negócios para um desenvolvimento inteligente, enxuta e com uma produção de alta eficiência", relata.
Mudanças tomam tempo
Se pensarmos que a Terceira Revolução Industrial teve início em meados dos anos 1950 e se estendeu durante décadas, teremos noção de que a Quarta Revolução ainda está apenas começando. Iniciativas como a de Hira são o futuro da moda e também do planeta.
Assim, ao imaginarmos a Semana de Moda de Paris de 2065, quando o verão apontar na Europa, ainda conseguiremos ver desfiles luxuosos e, ao mesmo tempo, observar peças sustentáveis que podem ser produzidas em alta escala, que durem mais tempo e vistam a todos, refletindo um futuro onde a moda represente como um todo a sociedade, a cultura e o meio ambiente.
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