Adeus, rosa e azul: os livros apontam para um futuro colorido
- Ana Nóbrega
- 2 de ago. de 2022
- 5 min de leitura
A população LGBTQIA+ conquista mais espaço na literatura
Por Ana Beatriz Nóbrega, Maria Eduarda Vieira e Vanessa Pinto Moraes

O armário está empoeirado demais para os indivíduos LGBTQIA+ ficarem dentro. Ultimamente, tem sido mais confortável ler um bom livro - também escrito por LGBT’s - num ambiente mais agradável. É o que indica o mercado literário, já que nos últimos anos, a literatura LGBTQIA+ deu um boom. Esse movimento mostra que essa parte da população está reivindicando seu direito de ser reconhecida e devidamente representada por meio de personagens que fogem dos estereótipos.
Em “Vermelho, Branco e Sangue Azul” (2019, Seguinte), o público acompanha a história de Alex Claremont-Diaz, o filho da presidenta dos Estados Unidos, que precisa lidar com Henry, príncipe da família real britânica. No início, eles se odeiam, mas até quando?
A narrativa de “Os dois morrem no final” (2021, Intrínseca), mostra um olhar único sobre a vida com a história de Mateo Torrez e Rufus Emeterio. Juntos, eles vão desenvolver uma conexão verdadeira e aprender sobre os próprios sentimentos.
Já em “Conectadas” (2019, Seguinte), os leitores conhecem Raíssa e Ayla. Ambas jogadoras de um game famoso, elas começam a conversar e o interesse amoroso surge, porém tem um problema. Raíssa não disse que é mulher pois seu avatar é masculino. Como essa relação vai se desenvolver no mundo real?
Os livros acima citados estão na lista dos livros infantojuvenis mais vendidos de 2022 (até 22 de junho) do PublishNews, uma newsletter especializada no assunto livros. “Vermelho, Branco e Sangue Azul” ocupa o segundo lugar, “Os dois morrem no final” em terceiro lugar e “Conectadas” em 15º.

Enquanto a comunidade LGBTQIA+ consome a literatura que os representa, os indivíduos heterossexuais também se interessam pela temática. Seja para criticar, por serem simpatizantes da causa ou por apenas apreciarem contextos que não estão inseridos nos padrões heteronormativos.
Ariel*, que se declara heterossexual e afirma consumir literatura LGBTQIA+, diz:
“Me ajuda a compreender sentimentos e situações pelas quais nunca passei, traz discussões importantes que mudam meu modo de agir ou de pensar sobre determinada situação, me tira da bolha e mostra outros tipos de formas de amar.”
Cresce o arco-íris
A crescente demanda do público por representatividade nos últimos anos é uma das características expostas pela lista de mais vendidos do PublishNews. O ranking é elaborado a partir da soma das vendas de cada livro nas livrarias consultadas.
Nas listas dos últimos dez anos (2013-2022), o primeiro livro com temática LGBTQIA+, “Will e Will: um nome, um destino” (2013, Galera Record), de John Green, apareceu em 2014 na categoria de ficção, e não estava na lista dos mais vendidos na categoria geral.
A literatura LGBTQIA+ retornaria à lista apenas após um intervalo de três anos, em 2018, com o sucesso “Com amor, Simon” (2018, Intrínseca), de Becky Albertalli, em 15º lugar na categoria infantojuvenil, e “Me chame pelo seu nome” (2018, Intrínseca), de André Aciman, em 18º lugar na categoria ficção.
O segundo hiato vivido pelos livros com temáticas LGBTQIA+ na lista do PublishNews, em 2019 e 2020, foi superado em 2021, quando quatro livros desse nicho entraram no ranking. Agora, apenas no primeiro semestre de 2022, nove obras do universo queer já têm posições destacadas na lista.

No ranking da revista Veja do primeiro semestre de 2022, os livros “Vermelho, Branco e Sangue Azul” e “Conectadas” ocupam o 5º e o 13º lugares, respectivamente, na categoria infantojuvenil (IJ).
Em 2019, o escritor Juan Jullian, autor de “Querido Ex” (2020, Galera) e “Maldito Ex” (2021, Galera), concedeu uma entrevista a Mayra Bragança e Rafael Vasconcelos, na qual comentou sobre a primeira obra, publicada pela primeira vez em 2018 pela Editora Oito e Meio. Ele também falou sobre o espaço que a literatura LGBTQIA+ ganhou no mercado editorial.
Jullian disse que, mesmo com a tendência, apenas novos hábitos de consumo e de apoio dos leitores, mostrando seu interesse às editoras, dariam mais oportunidades ao universo queer.
Após observar o aumento da frequência dessa literatura em rankings como o do PublishNews e o da revista Veja, a esperança de um futuro mais colorido ocupa o universo da literatura.
Representatividade
A diversidade e a representatividade estão na boca do povo, e nas salas de brainstorming das empresas - principalmente de editoras de livros. A sociedade tem mostrado cada vez mais a sua preocupação com pautas sociais, principalmente aquelas que envolvem raça, sexualidade, identidade de gênero e causas ambientais. E as coisas não poderiam ser diferentes dentro das empresas, afinal, o intuito de qualquer produto é atender à demanda de seus consumidores.
Nos últimos 20 anos a comunidade LGBTQIA+ conquistou espaço de debate dentro da sociedade. Antes, ter pessoas que fogem do padrão da heteronormatividade branca como o rosto de produtos e campanhas era sinal de retaliação e discurso de ódio gratuito. No entanto, as coisas evoluíram, esses indivíduos começaram a ter seus direitos garantidos. Logo, qualquer tipo de discriminação contra sexualidade e gênero passou a ser crime, e as empresas abriram espaço para a diversidade no mercado.
O atual público jovem das editoras de livros é formado pela geração Z, conhecida por ser dedicada a pautas sociais e por defender seus ideais em tudo que produz e consome. Desta forma, é possível entender o porquê a representatividade e a diversidade se tornaram fatores tão importantes para os livros e histórias que têm surgido.

Há pouco menos de dez anos, a quantidade de livros voltados para o público LGBTQIA+ era escassa. As poucas publicações ou eram feitas de maneira independente, ou por escritores internacionais. No entanto, o cenário foi mudando conforme autores da comunidade lutavam por seus espaços. Foi em 2019 que a literatura queer bombou no Brasil. Isso devido à ação do prefeito Marcelo Crivella, da cidade do Rio de Janeiro, que solicitou que todas as obras LGBTQ fossem retiradas da Bienal do Livro, por serem consideradas “conteúdo impróprio para menores de 18 anos”.
A movimentação foi grande: influencers, autores e editoras saíram na linha de frente para a defesa da literatura queer e, naquela edição do evento, o grande assunto eram as obras voltadas para a comunidade LGBTQIA+. Com o passar dos anos, esses livros foram ganhando o coração dos leitores, e a representatividade caiu no gosto do povo.
Na pesquisa elaborada pela reportagem para entender o perfil dos leitores da literatura queer e suas necessidades, os dados apontam que mais de 50% dos entrevistados que afirmam consumir esse tipo de leitura são de dentro da comunidade LGBTQIA+, enquanto a maior parte daqueles que se identificam como heterossexuais não consome esses produtos. Quando questionados a respeito do porquê esse tipo de leitura é importante, quase todos os entrevistados afirmaram que a representatividade é um dos pilares, que traz mais do que visibilidade e sentimento de pertencimento, como também informação e novos pontos de vista.

Em entrevista para o podcast do PublishNews, a autora Clara Alves, do livro “Conectadas”, reforçou a importância da representatividade para os profissionais.
“Saber que a gente está chegando nessas pessoas e mostrando a força da nossa literatura nacional LGBT, é de uma realização muito grande mesmo. Porque a gente fica, cara, a gente tá liderando esse movimento de futuros autores nacionais que tem esse sonho é tão vendo que é possível eles chegarem lá também”, afirmou.
*Nome fictício. Resposta concedida a partir do questionário virtual. Foi escolha da equipe não exigir identificação das pessoas que responderam.
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