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A real varíola da África

  • Foto do escritor: Emanuele Santos Almeida
    Emanuele Santos Almeida
  • 30 de jun. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de jul. de 2022

Como a ausência de políticas públicas tornam o continente um epicentro de novas doenças


Por Emanuele Almeida e Lorrana Marino

A nova doença traz foco para a situação social do continente e a irresponsabilidade dos países ricos frente às situações de saúde global. Foto: Via ANDES

Desde o início da pandemia de covid-19, o medo de outras epidemias permanece vivo nas pessoas. Esse pavor se comprova ao analisarmos dados da Universidade de Duke; eles indicam chances de 2% ao ano de surgir uma pandemia de impacto similar ao coronavírus.


Diante desses dados, a preocupação se intensifica frente aos novos casos de varíola dos macacos ou monkeypox que vêm sido relatados em diversos países desde maio.



Mas o que seria a varíola dos macacos?


Quando falamos da varíola “comum” tratamos de uma das doenças mais terríveis que assolaram o mundo, a qual causou mais de 300 milhões de mortes durante o século XX. A sua transmissão ocorre, em grande parte, pela inalação de gotículas que contêm o vírus – pela saliva, ao tossir e espirrar –, ou, pelo manuseio de roupas, lençóis ou outros objetos contaminados pelo doente.


O agente causador da varíola humana, também conhecida como smallpox, é o vírus Orthopoxvírus variolae. A doença se manifesta de maneira abrupta e se assimilam aos sintomas de gripe ao apresentar febre alta, dores de cabeça e no corpo, abatimento e calafrios. E, quando a doença progride para a sua forma mais grave, a febre diminui e começam a surgir erupções na pele.


Já a monkeypox vem da mesma família do Orthopoxvirus, porém ela é considerada uma zoonose viral, ou seja, o vírus é transmitido aos seres humanos por meio de animais e assim entra na cadeia de transmissão comunitária da doença.


Sua descoberta ocorreu na década de 50, em um laboratório dinamarquês dentro de uma colônia de macacos mantidos para pesquisas. A varíola dos macacos apresenta sintomas semelhantes à varíola humana e pode ser considerada clinicamente menos grave, mas ainda assim transmissível.



Monkeypox: por onde ela anda?


A doença ressurgiu na Nigéria em 2017, depois de 40 anos sem casos relatados. Nesse ano, mais de 450 casos foram registrados no país e ao menos oito casos foram relatados internacionalmente.


O estágio final da varíola é uma erupção cutânea, em que se forma uma crosta. Foto: GETTY IMAGES/BBC

Após isso, em 2018 e 2021 foram notificados sete casos da doença no Reino Unido, majoritariamente em pessoas com histórico de viagens à regiões da África – países endêmicos. Porém, somente agora em 2022, mais de mil casos já foram confirmados fora da África e a maioria deles não têm relação com viagens a locais endêmicos.


No Brasil, o primeiro caso registrado aconteceu em 9 de junho com Anderson Ribeiro o qual, diferente da maioria dos casos registrados no mundo, contraiu a doença viajando para a Europa. Mas, após o isolamento, ele foi liberado no dia 20 de junho e passa bem. Atualmente, o país já registrou 8 casos da varíola dos macacos, sendo 50% destes casos no estado de São Paulo.


Apesar do susto, especialistas afirmam que não há necessidade de alarde com a doença e que ela não tem similaridades com a covid-19 no quesito expansão e alta taxa de transmissão:


“Ele se transmite com menos eficácia, é necessário um contato mais próximo, mais íntimo”, relata Flávio Guimarães da Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia em entrevista ao portal de notícias Poder 360.


Mas por que ela se expandiu gradativamente nos últimos meses?


Sabendo que a doença circula há mais de 50 anos nas regiões africanas, por qual motivo ainda não existem políticas mundiais de apoio e contenção da transmissão que ocorre livremente nas regiões oeste e central da África?

"Para a epidemiologista da OMS, Maria Van Kerkhove, muito pouca atenção é direcionada para a região, o que, consequentemente, alimenta a cadeia de transmissão durante todos esses anos.



Por que a África parece sempre à mercê de patologias?


A princípio, é importante olhar para o continente como tal. São 55 países com leis, costumes e governos diferentes, e não apenas uma nação unificada. Ainda assim, a relação externa afeta todas as pessoas do continente em conjunto.


Embora a atual pandemia de Covid-19 não tenha castigado a África em números de mortes – comparado a outros países –, o descaso governamental em algumas regiões, sim. A parcela mais pobre da África do Sul, encontrou dificuldades em se sustentar e manter o isolamento social, uma vez que essas pessoas são a classe trabalhadora – a mais atingida pelo descaso dos líderes.


Essa população além de se arriscar ao sair de casa, quando retorna, encontra ausência de saneamento básico e um espaço físico precário e inseguro.

“Não se pode praticar o distanciamento físico se você e seus pertences estiverem na beira da estrada ou em um espaço aberto e expostos, sem meios de proteção”, como relata o documento ao Conselho Nacional de Comando.

Assim, sem políticas públicas que abranjam a grande parte da população em suas diferentes regiões e garantam o acesso à saúde e qualidade de vida, temos como consequência um continente fragilizado e sempre suscetível a novas doenças.


14 países africanos vivem em desigualdade econômica, segundo o Relatório de Desenvolvimento Econômico de 2021 sobre o continente. Foto: Pixabay



Vacinas, uma esperança para todos os países (ricos)


Quando os laboratórios ficaram aptos a vender os lotes de seus imunizantes, as nações com maior poder aquisitivo saíram à frente na corrida contra a pandemia. Essa competição, no entanto, desfavorece nações que não podem armazenar ou arcar com os custos do imunizante, assim, apenas 32% da população da África do Sul está totalmente vacinada, contra 82% do Canadá, por exemplo.


Vírus não escolhem países, apenas alastram-se em lugares mais suscetíveis e desprotegidos. Com tamanha discrepância nos sistemas de saúde ao redor do planeta, é natural que apareçam novas variantes e doenças, como a varíola dos macacos.


Essa variante não possui tratamento específico, entretanto o mesmo imunizante utilizado no século passado para erradicar a varíola humana é eficaz. Sobre o assunto, Ahmed Ogwell Ouma – do Controle e Prevenção de Doenças (principal agência de saúde pública da África) – em entrevista à imprensa afirmou:

“As vacinas devem ir para onde são mais necessárias e de forma equitativa, com base no risco, e não em quem pode comprá-las”.

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